Mar da Palha…

Lá no Porto, debruçado sobre a foz do Douro, vive o sitio por onde deambulei nos tempos da rebeldia, ali muito perto da Cantareira onde Carlos Tê deu asas ao Chico Fininho. Os nevoeiros escondem-se por aqui e o mar, que se espreguiça ali bem perto, ofusca-se e desaparece por dentro dele, mas ronca assustadoramente nas noites de invernia. Um farol, plantado ali bem perto da casa de família, lembra a marinhagem que daqui se agigantou desafiando os Adamastores que se misturavam nas revoltosas ondas que aqui chegam vindas do além.
Durante toda uma década calcorreei estes cantos, urbanização a estrear e com coração a pulsar no saudoso café Varanda da Barra. Lá ao fundo, no inicio da subida para a Pasteleira, a imaculada capelinha do Senhor e Senhora da Ajuda, relembra peregrinações dos marinheiros nas idas e vindas das labutas pesqueiras bem como das epopeias marítimas nos desbravares de novos mundos. Aqui, nesta zona, toda a toponímia conta nossa História de navegantes.  
Mais abaixo, já lado a lado com o Douro, é visível o resto do cais onde se construiu a armada que zarparia, sob comando do Infante D. Henrique, à conquista de Ceuta. Pela solidariedade com esta expedição o portuense ganhou galhardia Tripeira. Mais à frente, a caminho da cidade, após ponte da Arrábida e antes da D. Luiz, resplandece a casa berço do nosso Infante de Avis.
Agora, volvidos mais de trinta anos, espraio-me noutras águas, as do Sul, ali para a Caparica, nos mares de Almada.  O solarengo areal, o mais extenso em contínuo da costa portuguesa, abençoado pelas imponentes serras da Arrábida e Sintra, é ponto de partida no desbravar da planície que nos transporta ao mediterrâneo onde habitam os ares que sopram de norte de África.
Por mão amiga, benditos destinos, foi-me oferecido desencantar de tesouro inesperado: na baía do Seixal, plena de horizontes deslumbrantes, debruada por mouchões e sapais, colorida por barcos de pesca multicores, com inúmeros destroços de embarcações que nos contam histórias de passado venturoso, jaz palacete dos Lusíadas. Construído de raiz pelos irmãos Gama, Paulo e Vasco, esta soberba Quinta do Vale de Grou (hoje Quinta da Fidalga) foi aconchego no observar da construção, aqui mesmo, das Caravelas que haveriam de rumar e decifrar nova estrada de água, o Caminho Marítimo para a Índia. Paulo haveria de falecer, no regresso, a bordo e num incêndio da São Rafael.  Esta Quinta, a de Grou, tem dois tesouros: uma fonte em forma de peixe trazida da India por Vasco e um Lago de Maré, piscatório, exemplar único de arquitetura hidráulica em toda a europa.
Porque visceralmente necessito da borda de água para cumprir a vida, dou comigo, amiúde, nos sonhos que colaram o nome de Portugal nos quatro cantos do mundo, por obras valorosas.
Ao observar o ultimo debate quinzenal na Assembleia da Republica fui transportado, de novo, para a Baía do Seixal, agora não na observação de um herói, mas do nosso líder da oposição, Passos Coelho, emaranhado em offshores. Vi um naufrago politico, agarrado a uma cana de junco, desesperado, sem agarrares, ali bem no centro da História para esquecer, num dos mais lindos braços do Tejo, o Mar da Palha…