Memórias de um país que chora mas que ama

Portugal é um país porque constituído por um povo (a Nação) e por um Estado (o conjunto de poderes e organizações políticas e administrativas que orientam e administram ambos, Estado e Nação).
Portugal é um país cuja nação é muito díspar, tanto étnica como social como ainda economicamente. Existe o povo que trabalha e sobrevive; existe o povo que trabalha e vive normalmente, sem grandes folgas financeiras; existe o povo que trabalha e se governa bem; existe o povo que não trabalha mas se governa muito bem, à custa do sacrifício e do sofrimento dos outros. De um modo geral, esta última espécie de indivíduos, ou vive de subsídios ou administra o Estado e as suas organizações, dispõe dos meios do Estado em seu próprio proveito e só revela as limitações aquando de grandes crises. Entre os indivíduos desta espécie abunda os proxenetas e os prostibulários. Corrompem as instituições e medram na corrupção e jogos de influências que geram.
Portugal é por isso um país que só conseguimos conhecer aquando de grandes crises. Nessas alturas, apercebemo-nos das limitações, das falhas, da descoordenação e da ausência de responsabilização generalizada. Porém, os inquéritos que se seguem não evidenciam esta ausência de responsabilização generalizada, antes a interpretam como resultado ou da ausência de meios ou da montagem de políticas inadequadas. No Estado e nas suas estruturas de poder e outras medra por isso o aproveitamento para proveito próprio, incentivado quantas vezes por descentralizações e delegações de poder mal definidas, por privatizações sem carta nem de responsabilidades nem de contrapartidas nem ainda de penalizações e pela outorga de serviços em IPSS e em ONG de idoneidade duvidosa. Por isso, interrogo-me, desde já, sobre o quantitativo de dinheiro que vai chegar às populações afectadas em Pedrógão Grande e concelhos limítrofes dos 13 milhões de euros que a generosidade dos portugueses angariou.
A culpa dos desastres de Pedrógão Grande e concelhos limítrofes será, sem dúvida, ou do Cabo da GNR, comandante do posto local, e bombeiros de Castanheira de Pêra e Pedrógão, os elos mais fracos das forças no terreno, ou do mordomo, neste caso, a mãe-natureza que, independentemente dos erros dos homens, também lhes pregou uma grande partida. Na circunstância, os membros do Governo não tiveram a lucidez de promover um inquérito próprio e independente, colando-se ao proposto pelo PSD, a coberto da AR, deixando assim politizar totalmente a questão. E um inquérito que tem de ser técnico e funcional passou a político, como convém à nossa «intelligentsia» política, que faz dos fogos o «fogo de artifício» da política de Verão.
Mas a Oposição ao Governo não ficaria por aqui e, claro, era necessário ampliar o «fogo de artifício» demitindo a Ministra da Administração Interna. Era mais importante demitir a Ministra do que averiguar responsabilidades e saber o que funcionou mal e que limitações e descoordenações estavam associadas. Na tragédia maior, valia o faz-de-conta que permitiria manter a farsa e esconder o que realmente aconteceu. Pobre país, bem podes chorar as tuas tragédias.