A “minha” ribeira!...

Sem nunca omitir as minhas origens, porquanto fazem parte da identidade, da minha forma de sentir, viver e interagir, é habitual, todas as semanas, deslocar-me à minha aldeia natal – Frieira. Para além dos afetos pessoais e familiares, gosto do contacto com natureza e as coisas locais, convivendo no presente, com recordações do passado, mais ou menos recente.
Vem isto a propósito da tristeza que emerge em mim, ao ver, em pleno Outono, a ribeira da minha aldeia, a que eu também chamo “a minha ribeira”, sem vida, sem “alma”. Digo “minha”, porque, com ela, tenho uma ligação “umbilical” desde que nasci. Desde que me reconheço, a “minha” ribeira tem sido referência singular em múltiplos aspetos da minha vida, sobretudo porque foi nas suas, outrora limpas e transparentes, águas, que aprendi a nadar e, nas suas margens, a brincar. Arrebata-me, assim, neste clima de “verão prolongado”, profunda nostalgia, ao vê-la como nunca a vi. Seca, vazia de quase tudo, sem alegria, nem vida, de água ausente, despida!... De ventre trespassado, deixando ao léu, desprotegido, o seu leito. Evidenciando uma secura desértica e arrepiadora, que até me causa dor no peito. Quando, neste Outubro, tempo de correr “água nova”, a contemplo, a observo, da minha varanda, e nada mais vejo, além de terra, ou areia, queimadas pelo o sol, que aquece e reflete, sem se espelhar, lembro-me do sonoro e harmoniosamente orquestrado hino das rãs, nas noites de primavera, dos peixes desconfiados, dos patos bravos, da tranquilidade das galinhas de água, ou das tartarugas a nadar. Um curso de água corrente, de muita e diversificada vida, que, neste “frio” estio, parece perdida, mas que prefiro imaginar que esteja adormecida. Na verdade, é desolador ver a “minha” ribeira assim. A ribeira da minha aldeia e só da minha, porque nenhuma outra, usufrui da mesma forma, da sua riqueza, que lhe “irriga o ventre”, num harmonioso e romântico correr, que alegra, potencia o viver e o reviver. 
Poder-se-á pensar que as ribeiras, sendo pequenos cursos de água, são todas iguais, mas não é verdade. A “minha” ribeira é diferente. Linda e muito especial: corre, habitualmente, tranquila, evidenciando a sua vaidade, sustentada na sua singularidade, umas vezes calma, outras, apressada e turbulenta, quando cheia. Trabalhadora incansável, com a alegria que os amieiros e as outras árvores que a ladeiam e a moderam, também lhe transmitem. Vigilantes atentos da rainha que as alimenta e lhes segreda canções suaves e balsâmicas. Estas melodias eram a música de fundo que acompanhava as  brincadeiras e gargalhadas cristalinas das crianças que fomos, de Frieira, e que continuam na nossa saudade. Acredito, ou melhor, tenho a certeza que esses sons ainda continuam por ali lembrando a minha, a nossa presença e a de tantos outros como nós, no vento, no sol e nos aromas da terra.
Recordo-me do açude e das pedras lisas e esféricas com os limos verdes a ondular com o ritmo da água: eram os cabelos, como lhes chamávamos.
Fazíamos "barcos" com as folhas e ficávamos a vê-los seguindo a corrente, imaginando aventuras, conforme a fantasia de cada um, e íamos transmitindo aos outros.
Foram tempos muito felizes. Plenamente felizes, como os recordo: o fazer por fazer e o brincar por brincar...."porque sim", com a alegria genuína da idade da inocência.
Nos tempos de criança não imaginávamos ainda o valor da nossa ponte românica, mas  era (ainda é) linda, assim como tudo o que a rodeava e rodeia.
Não pretendo voltar atrás, não. Só quero ver e ouvir a minha ribeira, contemplar o açude, ver o moinho de água a funcionar e voltar a observar os  amieiros espelharem-se nessas águas a quem transmitem um verde cristalino e irreal, como um espelho panorâmico ilimitado, na certeza de que o Universo lhes confere a força telúrica da terra que anima as raízes, no silêncio da noite quando um manto estrelado se estende sobre a “minha” ribeira!...