Nó Cego

Aqueles gritos lancinantes ainda ecoam no meu cérebro. Gritos repetidos, de sonoridades diversas, uivados até. Mulheres e homens os soltaram em dias sucessivos durante a praga dos incêndios, a recordarem outros idênticos, em anos anteriores.
Os bombeiros andaram aos boléus, desejáveis no cimo dos montes, nos fundos dos vales, em redor das casas na sua maioria sem áreas limpas, desprovidas de arbustos, cuidadas, porque os malefícios só acontecem aos outros. Os fogos de antanho estavam na arca do esquecimento até porque o socorro tinha aparecido a tempo. Socorro perfeito.
Dos bombeiros da minha meninice e adolescência guardo imagens de faces coradas, alguns donos de barrigas proeminentes, bigodes farfalhudos, barbas de três dias, dois ou três no exíguo quartel, a correrem em sua direcção quando a sirene tocava, afobados a envergarem casacões de cabedal cingidos por cinturões onde ressaltavam machados, a colocarem capacetes a luzirem a dourado na cabeça, a correrem para aqueles carros vermelhos a arfarem em consequência da idade.
Tinha e detenho estima e ternura por aqueles denodados Soldados da Paz, na maioria profissionais de artes e ofícios mal pagos, orgulhosos no serem bombeiros, envaidecidos no dia 8 de Dezembro, o seu dia de festa, de confraternização alargada a outras corporações de terras distantes.
Ficava embasbacado a ver o desfile de viaturas e Homens ufanos dos seus préstimos, no geral só elogiados nos momentos de aflição, nas alturas de lhe exigirem capacidades e forças de Titãs, desprovidos de bons equipamentos e treino apurado. Superavam as carências não sei como, mas sei quão preciosos eram, e são.
Na cidade contavam-se lances de coragem deste e daquele no combate às chamas, o Coronel Machadinho vinha sempre ao toque rememorativo, ainda Tenente comandou e expôs-se perigosamente no ataque a um pavoroso incêndio ocorrido na Rua Nova (os leitores mais novos façam o favor de perguntar qual é) na década de quarenta do século passado. Ouvir a descrição de façanhas dos bombeiros (o grande Guilherme Gomes Fernandes) aumentava a sua aura despojada de interesse de qualquer género, quanto muito peixe frito e uns copos de vinho apreciados na taberna do Sr. Nazaré.
Agora, felizmente, no que tange a quartel, equipamentos e estatuto processaram-se enormes modificações, alargaram-se as corporações profissionais, mas os Voluntários continuam a ser imprescindíveis, ai de nós se desaparecem. Sim, há querelas, invejas, vaidades, mas os Voluntários e Profissionais no terreno representam a generosidade arriscando a vida na defesa das de todos.
O Nó Cego dos fogos mora na opacidade dos gabinetes, as conclusões relatório do IGAT confirmam o descontrolo burocrático esbanjador de muitos milhões, o almocreve (não o do Amor de Perdição) dizia candidamente: onde há lúcaros, não há escrúpalos.
Anuncia-se um conselho de ministros cujo único tema será a floresta. Ainda bem. Aguardemos. Os interessados procurem saber junto das pessoas idosas de Rebordaínhos o acontecido há sessenta anos (a PIDE prendeu várias pessoas) por causa da floresta, dos baldios, os curiosos leiam Quando os Lobos Uivam de Aquilino Ribeiro. Aos senhores do mando só se pede: desfaçam o nó cego.
Armando Fernandes