No Gatilho…

A vertigem dos tempos, a desenfreada competição, o devorar das novas tecnologias, o inútil consumismo, a conquista do diferente, tudo são ingredientes do sangue gelado, abafador dos afagos que cimentam as amizades, o convívio, a socialização.
O irreal germina pela calada, o homem progride para autómato, mas por tonta ironia, tenta dar alma aos robôs autómatos que invadem o planeta.
Quando abro o baú do passado, quando basculho nos carcomidos papéis da memória, lá nos confins dos inícios civilizacionais, encontro o homem que venerava o sol, iniciador da global vida, do unicelular ao complicado ser que somos. A voragem do calendário, medido em anos-luz, atirou para segundo plano a adoração do astro rei, dele nos lembramos apenas em tempos de praia e lazer.
Uns mais que outros somos os autores da lenta destruição desta nossa casa, deste nosso planeta que foi escolhido dentro de todos os do sistema solar, para o despontar da vida. Reabusamos com atitude selvagem das dádivas que das entranhas da terra brotaram de uma forma livre, saudável e generosa.
Actualmente, cada vez mais com a ajuda da química pestilenta que corrói animais e plantas, é conspurcada a seiva da vida que dá pelo nome de água. Os plásticos invasores, de terrifica mutação, escondido no invisível mundo nano, instala-se lentamente nas nossa entranhas, será balão hermético com poder asfixiante. As ilhas plastificadas que erram à tona de água no ventre oceânico secarão, um dia, a fauna e flora marítimas. Mas a humanidade parece precisar apenas do pôr do sol para adormecer em paz.
Dizem os cientistas que o casamento fecundo entre o sol e a água deu à luz, no ventre terrestre, esta vida que nos dá vida. No entanto, prodígio do além, o sol será a mais pequena estrela da galáxia que nos adoptou, a via láctea. Mas já fomos mil vezes avisados pelos magos dos céus, os astrónomos, ele nasceu há cerca de 6.500 milhões de anos, mas de outro tanto não passará.
Mas dizem mais, que dentro de uns 1.100 milhões de anos a vida, já foi. Um sobre aquecimento do sol levará à total evaporação da água. A combustão total do hidrogénio em orbita solar fará com que a luminosidade e aquecimento atinjam valores actualmente não mensuráveis. O sol explodirá deixando atrás de si uma terra vagabunda e deserta.
Alheios a tudo isto, cá continuamos nas nossas guerras, protegendo apenas nossos umbigos, rindo da barriga dos outros, caminhando lentamente ao encontro da automatização total, fria e desumana.
Nos passeios, onde já não passeamos, caminhamos ordeiros, rumo a algures, com destinos marcados, agarrados a relógios controladores.
Não sei para que tanta pressa, tanta guerra, tanto desligar das coisas simples que nos dão felicidade.
No sistema interestelar não imagino quem de nós falará. Tal como nós, a Terra, sem vida e poeirenta, irá dormir de vez, rumará com toda a certeza a uma profunda solidão.
Mas um líder mundial, de poupa e gravata ao vento, quer livrar-nos da agonia, prefere antecipar, quer salvar-nos, quer carregar já No Gatilho…