NOVE E NOVENTA E NOVE

A propósito de atual Conferência de Davos, veio-me à memória uma conversa entre colegas e amigos, pouco antes do Natal, sobre Ética e Economia. Alguém no grupo perguntou a João César das Neves qual a sua opinião sobre a eficácia prática da fixação de preços, ligeiramente abaixo dos números redondos tidos como psicológicos. Contrariamente ao esperado e ao que se julgava saber sobre o assunto, o autor da coletânea “Não há almoços grátis” tem uma justificação histórica sobre a génese de tais “descontos” que, não negando a possível intenção de querer atrair clientes não lhe é, seguramente, reconhecido real valor de marketing. A verdadeira razão tem um fundamento mais contabilístico e de controlo. Segundo o Professor de Economia da Universidade Católica a razão de ser dos valores ligeiramente abaixo dos valores certos e redondos foram estabelecidos e popularizados pelos donos das lojas comerciais para obrigarem os operadores das caixas a registarem os produtos. Nos primórdis do século passado a contabilidade era totalmente manual e o controlo de mercadorias era feito, de forma sistemática, apenas uma vez por ano quando as lojas costumavam fechar para fazerem o inventário físico que precedia o balanço. A contabilização diária era feita manualmente e com base no apuramento de caixa. Ora, para que os donos estivessem seguros que todos os movimentos eram devidamente registados a forma mais eficaz que foi encontrada era precisamente com a fixação de preços que obrigassem ao operador da mesma a entregar troco, na esmagadora maioria dos casos. Como o troco teria de ser reirado da gaveta da caixa registadora e como esta só abria depois de devidamente colocado o preço, de forma bem visível para o cliente e de rodar a manivela mecânica (ou elétrica nos anos mais recentes) ficava garantida a gravação da transação para posterior verificação.
A operação de caixa, nessa altura, era das operações mais importantes do comércio tradicional e era, normalmente, executada pelo gerente da loja e a preocupação atrás referida só fazia sentido, obviamente, quando este, não era o dono do negócio, sendo contudo, alguém da confiança do respetivo patrão.
 
Diz-se, ligeiramente, que em Davos, estão os donos do Mundo. Não é verdade. A propriedade da Terra é da humanidade que tem o direito de gestão pois que quem se apresenta na estância suiça fá-lo em seu nome. Em 2018 estão lá Trump, Macron e João Lourenço e não Obama, Holande e Eduardo dos Santos precisamente porque foram estes os escolhidos pelos eleitores dos respetivos países que representam.  Supostamente todos eles terão de dar conta da sua gestão, aos seus donos e patrões. Uns mais que outros. Mas, em boa verdade, o balanço do respetivo mandato far-se-á num período nunca inferior a quatro anos. Tal como a esmagadora maioria dos políticos eleitos segundo as regras democráticas aceites como as que melhor garantem e defendem os direitos de propriedade dos cidadãos sobre a coisa pública. Sendo certo que em determinados regimes há “aprovações” com percentagens elevadíssimas a regra geral é de os eleitos terem uma validação que raramente ultrapassa os sessenta por cento.
 
Quando um patrão tem outrém à frente do seu negócio é indício de que esta não é a tarefa mais importante da sua vida. Terá outras ocupações a que atribui maior relevo. Mesmo assim acha que a verificação geral anual da prestação de alguém da sua inteira confiança é insuficente e precisa de um controlo mais apertado e frequente.
Sabendo que alguns políticos se comportam como se fossem donos das instituições para as quais são indicados por uma parte do universo eleitoral; sabendo que a gestão dessas organizações interfere com a vida pessoal, profissional e familiar de cada um de nós; porque razão há-de ser suficiente um exame genérico e sintético da sua atuação com intervalos de quatro anos?