O CAMELO E A AGULHA (II – A MULTIPLICAÇÃO NATURAL)

Terminei o meu texto anterior contando a história do António que depositou um milhão de euros no banco do Aníbal. O negócio dos bancos, como é sabido, é emprestar, com juros, o dinheiro dos depositantes. Foi assim que o Abel recebeu do banco o milhão que o António ali tinha depositado como empréstimo para fazer a sua fábrica. Quem lha construiu foi o António que era empreiteiro e recebeu esse mesmo milhão que depositou na sua conta. Ficou assim com dois milhões na sua conta corrente, pese embora no banco só haja um milhão de euros! Que, mesmo assim, está disponível para ser de novo emprestado a quem dele precise. Foi o caso do Asdrúbal que pretendia comprar e equipar uma quinta no Douro e equipá-la para produzir vinho.
Custou a quinta meio-milhão e o seu equipamento, outro tanto. Curiosamente a quinta era uma herança recente do António e o equipamento foi a primeira venda da fábrica do Abel. Por inércia o António depositou os quinhentos mil na mesma conta bancária, elevando o seu saldo para dois milhões e meio. O Abel, ao contrair o empréstimo fez também um acordo preferencial com o banco para domicialiação dos salários dos seus colaboradores e depositou a totalidade do dinheiro recebido numa conta à ordem que serviria de fonte para os pagamentos subsequentes. Os depósitos no banco do Aníbal em conta à ordem somavam já três milhões mas, em dinheiro vivo apenas existia o primeiro e único milhão. Segundo a atual lei bancária, este esquema multiplicador pode prosseguir até oito vezes.
À medida que o Abel vai pagando os salários o dinheiro é tranferido para as contas dos seus colaboradores e estes vão fazendo levantamentos, para as suas necessidades diárias. No final do ano todos os quinhentos mil euros saíram do banco e, sem que este fizesse nenhuma operação adicional alterou signficativamente o rácio dos depósitos e disponibilidades. De um para três passou a ser de um para cinco pois para os dois milhões e meio de saldo bancário a tesouraria resume-se a meio milhão.
Parece fraude mas não é. Contudo se o António quiser levantar um terço do dinheiro que lhe pertence, o banco não tem para lho dar e se lhe for exigido arrisca uma falência. Como justificar isto?
Se tudo correr bem o dinheiro emprestado será devolvido e, nessa altura, estará em condições de resgatar a totalidade dos depósitos. Não houve, em boa verdade, nenhuma mutiplicação do dinheiro. O que acontece é que o banco, com o mecanismo referido está já a antecipar o futuro e pô-lo, mediante o pagamento de uma renda, à disposição dos seus clientes. Tudo certo desde que não haja uma corrida aos levantamentos. E não haverá, desde que os clientes estejam tranquilos com a situação. Tradicionalmente estão. Deixarão de estar se suspeitarem que o banco não será capaz de reaver a totalidade dos créditos concedidos. É portanto uma questão de confiança no futuro. Dela falaremos no próximo texto...