O CAMELO E A AGULHA (III – DA CONFIANÇA)

Em duas crónicas anteriores contei uma história simples e verossímil: o empreiteiro António depositou um milhão de euros no banco do Aníbal. O Abel levantou esse dinheiro através de um empréstimo e entregou-o ao António para este lhe construir uma fábrica e voltou de novo ao banco. Foi emprestado depois ao Asdrúbal para comprar uma quinta. O antigo dono da Quinta depositou-o no mesmo banco. Com um único milhão em caixa o banco tem registado em contas três milhões. Nada disto é extraordinário pois é suposto que quem contraiu os empréstimos os devolva quando vencidos e tudo ficará acertado.
Para simplificar vamos concentrarmo-nos apenas no capital supondo que os juros pagos são a justa remuneração dos custos bancários. Levemos a simplificação mais longe admitindo que este é o único negócio do banco e que ambos os empréstimos têm um prazo de vencimento de cinco anos. Admitamos ainda que os negócios correm como planeado. Existem então duas hipóteses:
Na primeira, todos confiam no sistema. Nenhum deles tem uma necessidade adicional de grandes verbas durante os cinco anos. O negócio da fábrica do Abel corre bem, tal como a quinta do Asdrubal e ambos devolvem o odinheiro que tinham recebido. Nessa altura quer o António quer o antigo dono da quinta resolvem levantar a totalidade do dinheiro que tinham à ordem e, obviamente, o banco entrega-lho, sem qualquer problema.
Na segunda hipótese igualmente ambos os empreendimentos correm igualmente bem e dentro de cinco anos estarão em condições para devolverem o capital recebido. Contudo alguém “segredou” ao António que o banco está a passar dificuldades e como tal sugere-lhe que tire o dinheiro de lá. Este, pelo sim, pelo não, dirigiu-se ao balcão e tentou levantar parte do dinheiro, nomeadamente um milhão e meio. O banco, obviamente, não tem esse dinheiro e levanta dificuldades à realização da operação. Isso aumenta a ansiedade do António que exige a totalidade do depósito. Fica tudo ainda pior. O alarido é tanto que o antigo dono da quinta, ao sabê-lo, vem querer levantar também o dinheiro que ali depositara. A liquidez do banco não o permite e a situação fica insustentável. Depois de várias ameaças entram com um processo em tribunal e o banco vai à falência. O juiz determina que a totalidade dos ativos do banco, descontadas as despesas extraordinárias, seja entregue aos depositantes na proporção das existências. Perdem grande parte do seu dinheiro, os funcionários do banco ficam desempregados, os depositantes restrigem a sua atividade levando ao “arrefecimento” económico que vem perturbar o normal funcionamento da economia local. Mesmo sem falirem, quer a fábrica quer a quinta, colocam menos produtos no mercado, vendem menos e têm de reduzir o pessoal. O resto é previsível...
A única diferença entre estas duas hipóteses reside na confiança. Com confiança tudo corre bem, há desenvolvimento, emprego, atividade económica e boas contas. Sem confiança, pelo contrário, tudo corre mal. No tempo moderno, o crescimento e sustentabilidade do mercado baseia-se, maioritariamente, na antecipação de rendimentos futuros. Por isso mesmo é grande a responsabilidade de todos os agentes e dirigentes, nacionais ou, no que nos interessa, regionais, a quem compete manter a confiança dos cidadãos no sistema em que vivemos.
Como? Mais tarde veremos...