O CAMELO E A AGULHA (IV – CONCLUSÃO)

Expliquei aqui, em edições anteriores, que os bancos permitem o aumento da liquidez disponível no mercado, antecipando proveitos futuros e, com isso, fomentando a atividade económica, aumentando o rendimento disponível, permitindo o crescimento do emprego e do bem estar. É certo que a Banca e os banqueiros têm, com alguma intensidade e gravidade adicionais nos últimos tempos, cometido abusos e desvios graves ao princípio basilar e orientador da sua atividade. Em alguns casos têm sido os cidadãos a pagar, injustamente, os prejuízos desses desmandos. Mas isso não esconde nem apaga os benefícios carreados para a sociedade em geral.
Ao trazer para o presente e disponibilizar quer aos indivíduos quer às empresas os meios a que só teriam acesso num futuro longíquo, permitiram o usufruto antecipado de bens de valor elevado (casa, carro, equipamentos e tecnologias) com base na presunção que todos os agentes cumprirão os seus deveres no tempo adequado e dando sentido a este complexo sistema a que chamamos mercado. E tudo com base na confiança. Por isso é tão importante, fomentá-la, preservá-la e mantê-la. Qualquer diminuição, mesmo que breve, mesmo que momentânea, pode ser demolidora e de consequências imprevisíveis. A sua manutenção é de interesse público e, sendo tarefa para a qual todos devemos contribuir, pesa sobre os agentes públicos uma responsabilidade acrescida.

Este é um “mecanismo” da sociedade global que começou, é bom recordar, com a expansão marítima iniciada pelos portugueses e espanhóis. A propósito refira-se que para a primeira fase da globalização o importante foi o engenho, arte, coragem e determinação. Teve tudo isso o povo ibérico e por isso dominou o mundo, fraternalmente dividido em Tordesilhas. Os holandeses vieram depois e com o seu poderio militar ocuparam muitas das novas terras. Quando perderam essa influência, duas nações se perfilaram para lhe disputar a posição que começavam a perder: Inglaterra e França. Os gauleses eram, à época, mais ricos, mais experientes, mais poderosos militarmente. Contudo foram os anglicanos a levar a melhor. Porquê? Porque quando os recursos próprios se manifestaram insuficientes o mercado de então facilmente concedeu crédito à coroa britânica mas não confiou na opulenta Versailles. Muito embora em Buckingham também houvesse riqueza, fausto e alguma opulência, bem do agrado da nobreza e até do próprio povo, em nada se assemelhava ao regabofe das festanças e soberbo desperdício da corte do Rei-Sol. O acesso ao crédito era difícil para a monarquia gaulesa e apenas o conseguiam de forma mitigada e a troco de elevadas taxas de juro. Como resultado foram os ingleses a consolidar um império onde o sol nunca se punha enquanto a monarquia francesa perdeu poder, prestígio, domínios e caminhou aceleradamente para o cadafalso resultante da tomada da Bastilha.

Seria bom que, pelo menos em ano de eleições autárquicas, os dirigentes locais pensassem bem nisso. Festas e romarias, sendo populares serão aparentemente rentáveis em termos eleitorais. Mas é bom levar em boa conta os recursos a afetar-lhe que devem ser contidos e moderados. Panem et circenses foi o lema que popularizou muitos dos dirigentes romanos e lhes grangeou prestígio e fama junto das camadas populares que os aclamaram... Foi igualmente essa política que conduziu à queda do poderoso Império Romano desbaratando todo o valor conquistado no campo de batalha com evidente prejuízo para os mesmos dirigentes que a promoveram mas também para o povo que a adotou e aplaudiu.