O Caos na Urgência Hospitalar de Bragança

 
A experiência vivida no pretérito dia 24 de Novembro na urgência do hospital de Bragança, por muita água benta que lhe possamos colocar, vem ao encontro (diferente de “de encontro”) dos múltiplos e constantes relatos de quem sofre na pele o verdadeiro caos.
Antes de mais, é importante dar nota de que, embora seja um familiar meu o motivo principal deste texto, não tomo o assunto como pessoal, porque, em boa verdade, nesse mesmo dia, pelos mesmos motivos, houve muita gente a ser assomada pelo sentimento de revolta.
O meu pai, com a idade de 87 anos, deu ali entrada por volta das 13H00, na sequência de uma queda que lhe causou um traumatismo crânio – encefálico com laceração. Chamado para a triagem, e ainda que a situação fosse delicada, foi-lhe dada a pulseira de cor amarela. Teve alta às 18H30 horas. O mesmo paciente, num certo dia do pretérito mês de Agosto que não sei precisar, recorreu a estes serviços por motivo de uma trombose venosa profunda, tendo sido “contemplado” com a pulseira de cor verde. Esteve mais de três horas para ser visto pelo médico.
O meu progenitor, na data acima referida, partilhava a sala de espera com duas pessoas (no caso, senhoras) mais velhas do que ele, com a bonita e vetusta idade de, respectivamente, 90 e 97 anos. Ambas com dores, por motivo também de queda, tendo entrado sensivelmente ao mesmo tempo que o meu pai, tiveram que aguentar mais algum tempo pela vez.
Mais do que uma denúncia, quero aqui deixar registado, numa crítica construtiva, aquilo que entendo serem as causas directas do caos nestes serviços e da insatisfação dos utentes, quantas vezes atribuídos, de forma injusta, aos profissionais de saúde, que trabalham denodada e afincadamente, num ambiente de grande pressão, em condições que estão longe de serem as mais recomendáveis, para quem tem a nobre missão de salvar vidas humanas.
Fazendo um pequeno exercício de memória, não será difícil recordar que, em nome da política de contenção orçamental e dos cortes cegos na Saúde seguida nestes últimos dez anos, a maior tarde das unidades locais do distrito de Bragança viram suprimidas muitas das suas valências: por exemplo, as pequenas cirurgias que se faziam em Moncorvo, em Freixo, em Miranda, em Mogadouro, em Alfândega, etc., são agora feitas no hospital de Bragança. Resultado: a confusão é natural, porque a Urgência da capital de distrito recebe, seguramente, o triplo dos utentes, não tendo sido acautelado o reforço proporcional dos médicos, dos enfermeiros e das demais peças da complexa engrenagem desta máquina.
Um outro aspecto que, em meu entender, gera a confusão e a revolta dos utentes é a indefinição e a falta de uniformização de critérios no que diz respeito à prioridade no atendimento aos doentes. Foi-me dito, nesse mesmo dia, por um funcionário, que os idosos e as crianças não tinham prioridade – inacreditável, num país que se diz civilizado. Foi-me dito, mais tarde, por um médico, que o meu pai, com o quadro clinico que apresentava, de ferida aberta, tinha que lhe ser dada, no mínimo, a pulseira laranja.
Sou levado a pensar, perante este cenário de completa subjectividade e de livre arbítrio funcional, que demorar meia hora ou 5 horas para sermos atendidos depende não do grau de gravidade em que chegamos à urgência, mas da sensibilidade e do estado de espírito momentâneo do enfermeiro incumbido de fazer a triagem, que tal método não faz sentido.
É, pois, esta a “doença” da urgência hospitalar de Bragança. A cura, dependendo, em parte, da gestão interna, da administração, está nas mãos do “médico” responsável que, na sua “especialidade”, é unanimemente reputado de muito competente.