O carvalho da tragédia

Ainda era novo, duzentos anos, no entanto, acredito ter sucumbido à saudade dos ventos ásperos, frios, às chuvas geladas, aos nevões; saudades de natureza genética, pois tudo leva a acreditar ter ido tamanino para a subtropical Madeira de clima suave, os tuberculosos no século XIX procuravam consolo e cura na ilha, a Pérola do Atlântico.
Carcomido por dentro tal como António Nobre tinha os pulmões no fim da vida, o quercus robur nome científico do carvalho alvarinho, sucumbiu tombando pesadamente sobre a multidão postada nas imediações do templo em honra de Nossa Senhora do Monte, apostadas em venerarem a Santa no dia festivo em sua honra. Debalde o puderam fazer.
Ao ler a notícia, ouvir os relatos, ver as imagens, de imediato relembrei os carvalhos dos Foros de Guernica, símbolos da liberdade do povo vasco, miseravelmente bombardeados por caças a Alemanha nazi. Os carvalhos de Guernica receberem metralha e morreram no seu sítio sem arredarem «pé», porém não morreram na memória das gentes muito por mérito do genial Pablo Picasso, pois o malaguenho imortalizou-os num quadro actualmente exposto no Museu Rainha Sofia.
Também recordei os carvalhais existente nas aldeias dos concelhos de de Vinhais e Bragança, mormente na Serra de Nogueira, das maçacucuas a ressumarem goma a permitindo a construção de brinquedos efémeros, dos bugalhos pequenos, redondos, dos jogos nas pocinhas no jardim António José de Almeida, a competirem mano a mano contra os berlindes citadinos, dos chocalheiros, castanhos, presos em ramalhos delidos dada a acção do tempo.
O carvalho causa de lágrimas doloridas não teve a companhia de carvalhas mansas, as geradoras de maçacucas, viveu na companhia de plátanos, a mirar magnólias e fetos, feneceu deixando perplexidades científicas acerca do seu passamento, além de mágoas sem remédio ou consolo. Uma catástrofe, da qual devemos retirar ensinamentos, especialmente os decisores políticos de molde a livrarem-se de responsabilidades materiais e remorsos espirituais.
Saber da saúde das árvores públicas é obrigação dos políticos em geral, tentarmos avaliar as públicas e privadas das quais nos aproximamos ou tocamos é exigência que devemos fazer a nós próprios em particular. Evidentemente, apenas os timoratos e previdentes têm cuidados não vá o azar bater-nos à porta. E, o azar apanhou mortalmente treze pessoas e feriu mais de cinquenta.
Descuidados somos por índole ou preguiça, só colocamos trancas na porta após a casa ter sido roubada, se o leitor entender o contrário faça o favor de observar, ver e perscrutar bem tudo quanto o rodeia e depressa verificará o gritante desmazelo no que toca à falta de bocas de água contra incêndios, no respeitante à falta de condições de modo a cadeiras de rodas circularem desafogadamente (muitas residências de portas estreitas e escadas íngremes nem as recebem), das múltiplas barreiras a dificultarem a vida aos invisuais, a repugnante proliferação de dejectos de animais nos passeios e jardins, ou o cruel abandono de muitos desses mesmos animais.
A nossa falta de educação ambiental pode estar na origem do inopinado estertor do carvalho obrigado ao exílio no «paraíso» madeirense, nesta altura decorre um inquérito (somos um País de inquéritos inconclusivos), bom seria dele resultarem certezas referentes ao papel dos decisores demonstrativas de desta feita a culpa ter direito a casar-se. O noivo ou os noivos têm direito a defender-se, porém não o pode ou podem fazer recorrendo ao alçapão do quartel-general em Abrantes, tudo como dantes. Miguel Albuquerque e Paulo Cafofo pelo que representam estão na berlinda.