O CÓDIGO E A CONDUTA

– Dr. Asdrubalino, o que é este pacote colorido em cima da minha mesa?
– Isso é uma prenda, sr. Ministro.
– Ó homem você está doido? Quer destruir a minha carreira?
– Ó sr. Ministro, desde quando é que responder perante o Primeiro-Ministro é o ocaso de carreira?
– Não brinque com coisas sérias! O seu trabalho aqui é evitar-me problemas, não é expôr-me a ratoeiras. Abra lá essa coisa.
O solícito chefe de gabinete apressou-se a desempacotar a caixa de cartão que ocupava o centro da mesa de apoio da antecâmara do gabinete ministerial de onde saíram um embrulho grande, baixo e espalmado e vários outros mais pequenos.
– Isso não é o que eu estou a pensar, espero eu...
– Eu não sei o que o senhor ministro está a pensar...
– Deixe-se de sofismas e diga lá o que sabe.
– Isto é um faqueiro.
– Um faqueiro? Endoideceu de vez ou está mesmo determinado forçar a minha demissão?
– De forma nenhuma. Nada me motiva mais que mantê-lo no seu posto... até porque é dele que depende o meu emprego. Este presente em nada faz perigar o seu assento no Conselho de Ministros.
– Como não? Já ouviu falar no recém-aprovado Código de Conduta.
– Saiba sr. Ministro que é precisamente por estar em conformidade com o estipulado no referido Código que esta oferta pode ser recebida por si, sem o mínimo risco.
– Não me diga que é um faqueiro de plástico...
– Pelo contrário, é um faqueiro de alta qualidade. O preço de mercado é ligeiramente inferior a 1.500 euros e, contudo, cumpre integralmente o estipulado nos números 2 e 3 do artigo oitavo do referido Código, que estipula que o limite permitido é de cento e cinquenta euros, oferecido por uma mesma pessoa singular ou coletiva contabilizado no decurso do ano civil. Começando por aqui, o dicionáro Priberam da Língua Portuguesa diz claramente que o ano civil é o período de 365 ou 366 dias que começa a 1 de Janeiro e termina a 31 de Dezembro. Se reparar bem nos embrulhos verificará que foram todos enviados pelo correio, metade deles foram remetidos em Dezembro e a outra em Janeiro.
– Mesmo assim, metade do valor...
– Metade não, mas se essa metade for dividida por cinco...
– Dividida por cinco...?
– Atente um pouco mais, sr. Ministro e verá que o remetente de cada um dos pacotes é diferente.
– Mas...
– Se há algo comum a esses remetentes todos? Sim. São empresas distintas onde o seu amigo Benevides tem participações maioritárias, mas isso é um pormenor a que o Código não faz qualquer alusão.
Tranquilizado, o ministro, atreveu-se a abrir uma outra caixa destacada ao fundo da mesa.
– Dr. Asdrubalino, não me diga que estes são os sapatos que me ofereceram e que eu recusei por terem valor superior aos 150 euros permitidos...
– São sim, sr. Ministro. Só que foram para saldo e o valor de venda é agora de 149,99!
– Perfeito, meu caro. É óbvio que o seu lugar está mais que seguro. Pelo menos até ao fim da legislatura!