O funeral

Se eu, autor de crónicas sentidas, manejasse a arte da escrita tão bem quanto Fialho de Almeida, atrevia-me a tentar escrever o relato do funeral de Mário Soares, ao modo do seu opulento, tremendo, fascinante texto do fundibulário relativo ao enterro do rei Dom Luís.
Hoje muito poucos leem Fialho, às vezes expresso desagrado por grandes nomes da cultura portuguesa viverem na obscuridade, outros pura e simplesmente terem sido colocados nos armários do esquecimento. Reconforto-me agarrando-me a ideia de alguns detestando o vulgo se deliciam a ler o autor de Os Gatos, a par das obras de Raul Brandão, Régio, Nemésio, Carlos Oliveira e muitos mais.
O funeral de Mário Soares teve pontos de coincidência com o do rei, o qual saiu de Cascais, e vagarosamente foi para Lisboa. As tecnologias de ponta permitiram-nos ver, observar, perscrutar, olhar a malha larga e o ponto fino do tecer da tapeçaria cenográfica do enterro. O seu antigo assessor, grande amigo, José Manuel dos Santos logrou exitoso desempenho porque o delineou articulando-o com o protocolo de Estado, mas livre da sujeição monocórdica da burocracia.
Para lá da verborreia repetitiva dos palradores, cheguei a abafar o som, tudo quanto vislumbrei deu-me a possibilidade de rememorar a cronologia política do Homem nos seus múltiplos pontos de coesão e atrito, de cosmopolita, de mundano, de amante da boa comida e vinhos em consonância, de conspirador dentro do próprio partido, de resoluto no colocar de lado os adversários, em suma: o político a todo o tempo, sem intervalos ou hiatos.
Ainda temi a possibilidade de os organizadores cederem à tentação de encenarem colorida despedida de Mário Soares ao modo da realizada quando a mulher do Príncipe Carlos morreu em Paris vítima de um acidente no decurso de uma fuga aos caçadores de fotografias denunciadoras de entorses ao seu casamento. Felizmente não.
A enunciação simbólica dos marcos de referência do militante número um do Partido Socialista decorrer dentro do cânone contido da exaltação da honra de ter ascendido democraticamente os mais altos cargos da representação política em Portugal, os excessos verbosos ficaram na conta de quem os praticou muito por causa da deficiente cultura histórica e política dos autores.
Eu não possuo capacidade para analisar os acontecimentos (de toda ordem) da progressão política de Soares, noutro escrito referi três episódios onde troquei palavras com ele, acompanhei-o na viagem presidencial ao Brasil, trabalhei em dois projectos um centrado na Fundação João Soares, outro na sua Fundação, conheci e conheço amigos dele, também aguerridos críticos internos, militantes socialistas. No tempo do Secretariado.
A criação do PRD provocou azedumes e grossas discordâncias, antes, já as águas se tinham turvado, o episódio Frente Republicana Socialista é claro exemplo, em Santarém o verniz estalou, ao de cima vieram as fissuras existentes no campo da esquerda não comunista. Tanto Mário Soares como Maria Barroso (foi candidata pelo distrito escalabitano) nutriam reiterado afecto pelo terrunho ribatejano, a Mãe de Soares nasceu em Pernes.
Do rei D. Luís ficaram as traduções do dramaturgo autor de Hamlet e Rei Lear entre outras obras, agora votadas ao esquecimento por terem surgido novas versões, seguramente, Mário Soares vai suscitar maior atenção e estudo por parte dos historiadores e politólogos. Porquê? Porque, para o bem e para o mal, foi um dos maiores responsáveis pela plena efectivação da democracia em Portugal. O frutuoso mérito, ninguém lho pode retirar. Mérito a beneficiar as gerações futuras.