O furacão Costa

Há taleigo de anos no decurso de uma campanha eleitoral autárquica, um burro venceu um Ferrari na subida da calçada de Carriche. O autor da ideia do jumento competir com o cavalo rompante de Modena chama-se António Costa. Os mais atentos a biografias sabem quais os seus começos de formação política desde tenra idade, do aperfeiçoamento ideológico debaixo da batuta de Jorge Sampaio e acolitamento de Nuno Brederode Santos, César Oliveira e outros no decurso de demoradas conversas num snack-bar do edifício Franjinhas.
Aluno duplamente interessado na Faculdade de Direito onde receber lições e conselhos de Marcelo Rebelo de Sousa, o agora primeiro-ministro sempre demonstrou possuir prodigiosa memória mormente no âmago da luta interna partidária, sendo capaz de aguentar o fervor de servir fria num prato largo e fundo a denominada vingança.
Fino observador das fraquezas alheias, perito no manejo do bisturi ideológico no combate, ainda antes de conhecer os resultados das últimas legislativas entabulou conversas à esquerda de molde a em escasso tempo anunciar a chamada geringonça. A partir daí tem sido sempre a somar vitórias.
O último e clamoroso triunfo aconteceu nas eleições autárquicas, qual furacão varreu boa parte do País, tendo os seus efeitos sentidos numa escala de seis Câmaras em onze, no distrito de Bragança. De forma dolorosa em Mirandela pois a princesa do Tua repartida entre o CDS (José Gama e o PSD) acaba de cair no regaço da animosa Júlia Rodrigues.
Não por acaso Costa deu visibilidade à candidatura da deputada e apagou a lâmpada em Bragança, as sondagens internas são bússola a seguir, mesmo quando não nos agradam, concedendo aos atentos ao passar da carruagem indicadores de quais as Câmaras a justificarem o encarniçamento político dos líderes partidários.
O furacão Costa a nível nacional superou as suas próprias contas, no seu íntimo está contente, no tocante ao pragmatismo na acção acredito que ele de bom grado devolveria, pelo menos, Almada e o Barreiro aos comunistas. No entanto, as coisas são o que são, acredito na possibilidade de muitos eleitores se sentirem defraudados aqui e ali, daqui a quatro anos logo de verá, agora os socialistas saboreiam o favo da vitória deixando os gomos ácidos da derrota para o PSD e a CDU, se bem que o Bloco teve um crescimento pífio.
A retumbante derrota do PSD em Lisboa, no Porto, em Sintra e Oeiras ditou, obrigou, à renúncia de Passos Coelho a uma nova recandidatura, nem de outra forma podia ser dado o eleitorado ver nele o Diabo da troica, o Demónio dos cortes nas pensões, o Mafarrico do abaixamento dos ordenados e salários. O povo pode parecer bronco e salamurdo, não é e nunca o foi, aproveita todos momentos eleitorais para ajustar contas. Doa a quem doer, a fidelidade à carteira suplanta a fidelidade ao partido na esfera dos eleitores visitantes, isto è: dos seus interesses.
Sendo assim e é, pode-se perguntar: então qual a razão o PSD e a CDU conseguiram dilatadas vitórias em Bragança, em Braga, em Viseu, em Setúbal? Mais uma vez veio ao de cima a perspicácia dos votantes. O trabalho dos autarcas em causa foi de encontro aos seus interesses, clarinho como a água cristalina, por isso mesmo não se sentiram atraídos pelo furacão cor-de-rosa, bem como outros votantes que na dúvida preferiram não arriscar.
O furacão Costa sabe como eu sei, os furacões não duram sempre, esvaem-se, o seu, de efeitos benéficos para os socialistas atingirá o refluxo, reside aí a causa de pretender levar a legislatura até ao fim, doseando as reivindicações de uns e os agravos de outros de modo a apresentar-se limpo e lustroso ao eleitorado no desejo de conseguir a maioria absoluta. Noutra altura regressarei ao tema.