O guito

Desculpem os leitores ter recorrido a um calão para pronunciar dinheiro, segundo alguns a mola real (e republicana) que faz abrir todas as portas, olear todas as fechaduras, remover todas as dificuldades, comprar…quase todas as consciências. Há anos andei empenhado na justificação de um projecto relativo ao dinheiro e ao jogo, por esse motivo obriguei-me a leituras ásperas, de modo a justificar a criação do Museu. O Casino potencial cliente devido à crise desinteressou-se do mesmo, ganhei algum conhecimento e livros de autores como Max Weber, Zola, e o eclético George Simmel que aconselho a possíveis interessados pela história do valor e valores do dinheiro, conhecido através de centenas de vocábulos, desde os jargão financeiro aos falares de gente desdentada e gengivas sujas, às senhoras empinocadas em vestidos lustrosos, acetinados (os sedosos tafetás ou gorgorões fabricados pelos tecelões de Bragança são recordação de uma urbe fabril), de modo a parecerem bem quando vão fazer vénias às rainhas e acoimam o dito cujo dinheiro de guito.
Ora, o guito não tem cor apesar de as cédulas serem coloridas, não tem cheiro mesmo se as moedas suadas caídas das palmas das calosas  dos trabalhadores rendeiros só ficavam retidas nas níveas mãos de uma aristocrata de Vilar de Ossos (Vinhais) após as ter enluvado em pelica (a senhora em questão morreu vítima de convulsão na casa de banho) ficando nos anais das boas almas daquela aldeia e periféricas dada a dupla ironia do rolar dos pintos e patacos.
O lindo, bonito, e alavancador (Arquimedes desculpa) dinheiro apesar de também ter recebido o epíteto de vil metal, é adulado por muito boa gente, até deputados, e porque os Pais da Pátria não possuem o dom de Midas, possuem o poder de legislar de modo a o guito se multiplicar nas arcas partidárias pois a vida está cara, as campanhas eleitorais serem dispendiosas e a maquinaria do partido exigir óleo de boa qualidade e revisão condizente ao progresso técnico.
Na opacidade dos gabinetes deputados previamente mandatados cozinharam uma nova lei de financiamento dos partidos, depois da cozedura entenderam abafá-la, no entanto da panelas despenderam-se eflúvios, o praticante do CDS fugiu ao aspirar o esturrado, os restantes apressaram-se a aprovar e consumir o preparo passando a língua pelos lábios em sinal da satisfação como se tivessem degustado galinhola assada servida em canapés. Só que o cozinhado odoroso na altura de levantar fervura, requentado ampliou os aromas queimado e o esturro foi enorme, envolvente e prolongado. Aguarda-se o veto presidencial, os cozinheiros não serão despedidos, exímios no truque do gato por lebre, desastrados na confecção. Um deles representa o Distrito de Bragança, José Silvano de seu nome, arrisca-se a entrar no álbum das glórias parlamentares trasmontanas ao lado do famoso Calisto Elói Benevides grande retouçador de salpicões e presuntos