O licantre

Se o licantre te morder, vai ao padre que te cante. Assim o enuncia o rifão. Nunca vi nenhum, nem estou interessado em ver. Desde menino sei da sua existência por intermédio da minha Avó materna, a qual me contava contas (histórias) onde o licantre ou licranço traiçoeiro mordia sorrateiro e ao mordido só restava encomendar-se ao Padre.
Segundo ela todo o cuidado era pouco no colocar as mantas de farrapos e as toalhas sobre a erva a fim de comermos a merenda nos dias de idas às romarias, nada de o fazer em lameiros onde corresse água nas agueiras ou tivessem poças no seu seio. Estamos no mês apogeu das festas, o licantre veio-me à memória associado ao comer da merenda ida nos cabazes e cestas envoltas em toalhas asseadas e guardanapos de pano, festa era festa, cujas pitanças faziam crescer a água na boca ao mais pintado dos enfezados sem apetite, dos biqueiros sempre à rasca quando chegava o momento de tomarem as refeições.
As chouriças cozidas cortadas às rodelas a mostrarem veios de gordura rósea, as rodelas de salpicão e fatias de presunto envoltas em ovo e fritas primorosamente, o frango ou galito (as frangas não por evidentes razões económicas) apresentados do mesmo modo, ou em apurado guisado, os bolos de bacalhau frios, o queijo de cabra ou ovelha, o tentador pão trigo de farinha beijoqueira de serôdio, eram o cerne das ditas merendas, às vezes também enriquecidas com pedaços de pé de porco também fritos. Recordo-me de em duas ocasiões aparecer um leitão recheado, assado no ponto, voluptuosamente comido, esburgados e chupados os ossinhos.
Agora, nas referidas festas o leitor tem à sua disposição outras representações de comida, até porcos gordos a rodarem recebendo calor de fogo espúrio, além de frangos virados na grelha, bifanas vindas da frigideira (já ninguém usa sertãs), outras coisas que tais. No «mundo que nós perdemos» imperavam os mimos caseiros representados no que a casa tinha e a horta dava proporcionando galhardos e suculentos comeres, talvez por isso, o licantre procurasse apreciar o sangue dos festeiros. No meu ver de então, os homens comiam e bebiam desmesuradamente, pura e simplesmente, tiravam a barriga de misérias, a seguir o somo acometia-os, caíam de borco, ressonavam e ficavam à mercê do licantre, dos lacraus não, pois o venenosos artrópodes não apreciam água, nem erva húmida.
O suposto serpentino licantre provocava-me medo, obrigava-me a esquadrinhar as bordas adjacentes às ditas mantas de retalhos (não sei se ainda são feitas), sei, isso sim, quão profunda foi a alteridade verificada no domínio do regime alimentar do quotidiano e dos dias de festa, o progresso técnico é refulgente, no entanto, relativamente a referências culinárias de cunho festivo nutro fundas recordações. O Abade de Baçal ao enunciar as qualidades do cabrito assado ao modo de Montesinho, afirmou, ser tão gostoso que até os queixos iam atrás dele. No tempo actual assiste-se ao triunfo da grelha, até a mimosa carne dos cabritinhos é grelhada, um despautério, a retirar-lhe sapidez, logo deleite palatal. Temos de nos conformar, tal como nos conformamos ante a vitória dos produtos de aviário ou cercado, elevados à quinta-essência gastronómica, sem razão histórica ou tradicional. Caso de espécies de caça de pena. Presumíveis gourmets embarcam alegremente na nau do engano desprovidos de carta de marear.
Desfrute o leitor das romarias. Não se esqueça dos licranços chupistas de duas pernas. Tenha cuidado, as merendas de agora têm mais açúcar e menos sabor.