O Mosteiro de Palaçoulo e os “contemplativos ambulantes”

Um novo espaço dedicado à vida contemplativa vai surgir na diocese de Bragança-Miranda. Será construído em Palaçoulo, concelho de Miranda do Douro, o “Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja”.
Há setenta anos, a 23 de Dezembro de 1947, vieram para a diocese duas irmãs carmelitas – Irmã Maria de Fátima e a Irmã Maria do Pilar – que se instalaram em Moncorvo com a finalidade de ali construir o que viria a ser o último Carmelo em terras nordestinas. A igreja do convento foi dedicada a 16 de Julho de 1977, há quarenta anos, pelo então bispo auxiliar de Bragança, D. António José Rafael. O convento foi concluído no ano de 1990.
A vinda das carmelitas para a diocese deveu-se à intervenção de Sílvia Cardoso, que conhecia a vontade de D. Abílio Augusto Vaz das Neves de ver surgir na sua diocese um Carmelo.
Em tempos em que se vive envolto na agitação de um mundo em constante aceleração, em que se valoriza a exterioridade em detrimento da interioridade, parece anacrónico que alguém se queira enclausurar nos muros de um mosteiro. Todavia, as vocações a este estilo de vida têm vindo a aumentar, o que levou a Ordem Cisterciense da Estrita Observância, mais conhecida como “Trapista”, a abrir este novo mosteiro em Portugal. Como há setenta anos, foi decisiva agora a intervenção do bispo da diocese, D. José Cordeiro.
A vocação para a vida contemplativa é uma entre muitas na Igreja Católica. A ela só alguns são chamados. A maioria dos cristãos é chamada a viver no mundo e aí se realizar; ou, se preferirmos, a aí se santificar. Porém, mesmo no mundo, pode-se – e deve-se – incluir a contemplação na experiência de vida. O cristão pode e deve ser um “contemplativo ambulante”.
Esta é uma das intuições mais originais de Maria de los Angeles de los Rios Mora que caracteriza a espiritualidade do movimento eclesial de Mambré, por ela fundado, que acompanha nos últimos trinta anos leigos ou clérigos, casados ou solteiros, que queiram apostar no crescimento humano, espiritual, teológico e eclesial. Maria de los Angeles desafia-os a todos a aproveitarem os pequenos momentos de solidão ou de silêncio da sua vida quotidiana para entrarem dentro de si – e encontrarem-se consigo e com Deus. Mesmo quando se está envolto pelo ruído, pode-se sempre fazer silêncio dentro de nós. E quando se está rodeado por pessoas pode-se experimentar uma solidão só habitada por Deus.
Para além desses instantes de interiorização, é necessário também quebrar a rotina do dia-a-dia e dedicar um tempo mais longo ao silêncio e a essa solidão apenas visitada por Deus. Para quem quiser fazer isso durante alguns dias, este mosteiro, para além do espaço destinado ao uso exclusivo das monjas, terá quando estiver construído e a funcionar uma “hospedaria” para receber cerca de trinta pessoas.
É cada vez mais importante não nos deixarmos submergir pelo ruído ou pela agitação mundana. É cada vez mais importante poder restaurar forças para enfrentar o dia-a-dia com uma atitude ativa de contemplação comprometida com o mundo.