O Mundo Novo

Em 1932, Huxley publicou o romance Admirável Mundo Novo provocando uma avalanche de opiniões e comentários, colhendo louvores de todos quantos acreditam no incessante progresso técnico, arrecadando críticas dos desinteressados em mudanças porque na sua opinião um Júlio Verne dado a entusiasmar miúdos e graúdos chegava e sobrava.
Os filósofos da ciência e da técnica aplaudiram o livro «impossível», os cientistas desprovidos de humor ficaram ciumentos do também poeta, amante das viagens mesmo sem sair do divã, os impulsionadores da mudança do Mundo exultaram, sem descurarem o afã no desenvolvimento de tecnologias conducentes surpreendentes. Assim aconteceu, assim vai continuar a acontecer.
As vertiginosas alteridades em curso produzem ondas de choque, cousa velha desde que o Homem aprendeu a comandar os dedos, aquela espantosa sequência no filme A Odisseia no Espaço de Kubric, não precisamos de recuar muito no tempo, tendo na cidade de Bragança claro exemplo do conflito entre o velho e o novo. O celebrado cineasta também realizou a Laranja Mecânica, cujo tema também foi de precisa e pungente antecipação do futuro.
A Revolução Industrial provocou tremendos episódios de violência no decurso do seu alargamento, o caminho-de-ferro, a indústria da metalurgia, da tecelagem entre outras trouxeram falências, extinções de profissões, de trabalhos e miséria como podemos aquilatar não só nos compêndios de história, de igual modo na literatura e nas artes.
O burgo de Bragança atingiu preponderância na fabricação de tecidos de seda, na corografia ainda persistem vestígios da importante indústria, os dicionários e obras de múltipla temática registam personalidades influentes desse acetinado universo. Se procurarmos bem conseguimos descobrir apelidos daí derivados.
Ora, desde há meses as pessoas têm ao seu dispor serviços instalados em plataformas tecnológicas capazes de eficientemente colocarem ao nosso alcance bens, produtos e trabalhos cujo mérito reside no aumento da nossa qualidade vida em várias tonalidades. Incluem-se os táxis, para já em Lisboa, Porto e Faro. Para já, enquanto o fluxo não destilar lucro interessante.
Os taxistas estão a reagir ao modo de Dom Quixote contra os moinhos de vento, não querem perceber os ventos da mudança, os se preparam ou vão fenecer. Os taxistas conseguiram ganhar péssima imagem, a causa é conhecida de todos, não vale a pena repetir o sabido a granel e a contado. Estribados nos alvarás procedem ao modo de morgados no século XIX.
Muito boa gente ainda se lembra de nas tabernas, casas de pasto (de repasto, não de pastar) e nos cafés se mostrarem os alvarás a conceder-lhe licença de porta aberta a troco do cumprimento de várias obrigações. Essa época esvaiu-se, os alvarás caducaram, outras normas substituíram-nos.
Os taxistas defendem o condicionamento através da contingentação, não vou aduzir argumentos hilariantes acerca da pretensão destes profissionais desnorteados ante tão estridentes realidades. A política da avestruz tem prazo limitado, a evidência ganhará a corrida, daí a urgência em os protestantes usarem a inteligência e não os pés no encontrar escapatória capaz de enfrentar os desafios já no terreno.
Há cinquenta anos carroças puxadas por muares traziam as encomendas da estação da CP entregando-as nas lojas e comércios, o Max cantava a mula da cooperativa, cerrou a Cooperativa (Rua Combatentes da Grande Guerra), os carrejões desapareceram, o Max morreu, o nosso Mundo transformou-se. Só não vê, quem não quer. O Mundo está mudar de tal forma que Bob Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura deste ano. Alegrou-me.
Armando Fernandes
PS. 1. Já utilizei a UBER a contento. Táxis inúmeras vezes descontente. É a vida, disse o vencedor (justo).