O Novo (Des) acordo Ortográfico

Li com atenção o segundo de três textos publicados recentemente neste jornal pelo respeitado e eminente advogado da nossa praça, Dr. Júlio de Carvalho, a propósito do novo acordo ortográfico. Sendo este um tema que me é caro, e porque o nosso ilustre conterrâneo usou como força argumentativa um registo de linguagem que não condiz com a sua personalidade, ao considerar “fundamentalista” e “xenófobo”quem não é da sua opinião, não poderia, naturalmente, deixar de contribuir para este debate.
Neste como em qualquer outro tema, é fundamental, para lhe conferirmos um carácter de seriedade, não partirmos do pressuposto, numa visão puramente maniqueísta, de que o confronto se dá entre o preto e o branco, no caso, entre os “neo - liberais” da língua e os “Velhos do Restelo”. Ou seja, há pessoas que, não se associando a qualquer tipo de manifesto contra o novo acordo ortográfico, “resistem” à mudança, não pelo propósito, mas pela substância.
Como modesto utilizador da língua de Camões, e sendo, em regra, por uma questão funcional, adepto da uniformização de critérios e procedimentos e, sobretudo, da mudança, quando esta se justifica e traz benefícios, tenho a noção de que o novo acordo ortográfico, cuja bondade, dizem os seus apoiantes, reside na simplificação da ortografia, contribui para criar grafias facultativas, isto é, confusão nos escreventes.
Se esta nova grafia contempla a supressão das consoantes mudas, não há razão para que, por exemplo, a locução adverbial “de facto” seja escrita à vontade do freguês, uma vez que o som velar “c” é articulado no português de Portugal. O mesmo acontecendo com o nome comum “contacto”.
O contexto é uma das formas de, na língua portuguesa, desambiguar frases. Na semântica da palavra não confundimos “canto”, do verbo cantar, com canto da sala; nem rio, do verbo rir, com rio, na significação de curso de água. No entanto, com o novo acordo ortográfico, a frase “gosto de ir a Lisboa de fato”, quem a ler, independentemente do contexto – partindo do princípio que o autor não se dá bem com os sinais de pontuação -, torna-se ambígua, por ter duas interpretações: o sujeito da acção pode querer dizer que gosta de ir à capital trajado de fato; ou pretender informar, com a introdução da locução adverbial “de fato”, que, na verdade, gosta de ir a Lisboa.
Um outro exemplo deste controverso acordo, que, no limite, põe em causa a função comunicativa da linguagem, é a indiferenciação gráfica entre a preposição “para” e a forma verbal “pára”. Em Dezembro de 2016 (não consigo precisar o dia), o Correio da Manhã titulava em manchete: “Chuva para Lisboa”. Um enunciado que, com a inclusão da preposição “para”, nos remete para a informação de que vai chover na capital. Mas não, a imagem fotográfica que lhe estava associada dava conta da intensa chuva que caiu na capital no dia anterior e que fez parar Lisboa.
Deixo aqui a pergunta retórica que se impõe, a partir do seguinte elemento: Portugal exporta para o Brasil uma ínfima parte da sua produção ficcionada, novelas e curtas – metragens. Os nossos irmãos de Terras de Vera Cruz consomem esses produtos em linguagem dobrada, porque, dizem, não entendem o português de Portugal. Nós, inversamente, desde 1975, não temos qualquer problema em entender a variante melosa do português do lado de lá do Atlântico. Será, pois, legítimo interpretar essa postura como xenófoba e nacionalista?!