O paradoxo do amor

Imbuídos nas festividades próprias dos santos populares, o país acordou com o drama e o terror que assolou o centro da nação, particularmente no município de Pedrógão Grande. O luto e a dor dão agora lugar à reconstrução e à procura de sentido. Sentido para a existência, questionando, desde logo, a(s) razão(ões) da nossa existência e, diga-se também, da nossa fé. Esta tragédia tem revelado o que intuitivamente já o sabemos: o povo português é fiel à sua matriz – é um povo solidário. Nesta reconstrução muitas têm sido as preocupações (e bem!), mas questiono se nestas preocupações estão as temáticas inerentes à espiritualidade. Tenho vindo a refletir se, nós Igreja, estaremos, efectivamente, preparados para responder aos dramas existenciais da espiritualidade. Por outras palavras, estarão os batizados, nós católicos, conscientes do dom, da vocação e da missão baptismal? Lembremos o que diz São Paulo: «Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder» (2 Cor 12, 9). É este o paradoxo do amor, o paradoxo da assunção do tu, da ternura e da misericórdia de Deus.
Os critérios desta cultura dominante, que é per se competitiva e violenta, não seixa lugar nem permite espaço para a abnegação nem para a humildade. Antes, apelam permanentemente para a satisfação do ego, para a cultura do self, iludindo a comunidade para não existência nem cabimento para a dor e o sofrimento, mas que, quando é confrontada pela inevitabilidade da dor, esta cultura vê-se incapaz de responder. Será que Edgar Allan Poe (escritor norte americano, séc XIX) tinha razão quando afirmou que «para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto»? Sabemos que o sofrimento, à luz da fé, é redentor, pois permite que sejamos o que verdadeiramente somos, ou seja, seres de e em permanente relação: relação consigo mesmo, com a comunidade, com a natureza e com a divindade – com Deus.
O amor coloca-nos, sempre, como actores secundário no trama da relação. É o outro que se coloca e se nos dá primeiro. É sempre o outro o actor principal no teatro da vida e da existência. Na verdade, «a verdadeira revolução acontece quando mudam os papéis e não apenas os actores» (Gilbert Cesbron, escritor francês, séc XX). E só assim percebemos que «um dia sem sorrir é um dia desperdiçado» (Charles Chaplin, actor norte americano, séc. XX).
Não tenhamos medo! Não estamos sós! O amor inconcebível deste Deus que se dá perpetuamente sem ‘ses’ nem ‘mas’, sem reservas, é a grande novidade, é a maior das revoluções, pois a todos acolhe ternamente antes mesmo de termos consciência desse mesmo amor. Não é um amor condicionado como tão belamente no diz Srecko Horvat (filósofo e ativista croata, séc. XXI). Segundo ele «o amor foi capturado pelo capitalismo. Aplicações como “Tinder” reduzem o amor a um produto de mercado. Há uma espécie de “outsourcing” do amor». Fica a pergunta: que lugar ocupa o amor na minha existência, no meu ser em relação, no tesouro do meu coração?