O Paraíso são os outros

Em relação à ciência histórica, é muito conhecida aquela definição que Cícero oferece: a história é mestra da vida. Porém, há um momento em que esta verdade entra em crise: quando nós simplesmente, por indiferença, medo ou calculismo, não a deixamos exercer o seu ensino.
Apelando para esta função da nossa história recente, o presidente da República falava na mensagem para este novo ano que «o passado serve para apelar a que, naquilo que falhou em 2017, se demonstre o mesmo empenho revelado naquilo que nele conheceu êxito». Exigindo a coragem de reinventarmos o futuro, Marcelo Rebelo de Sousa convocou o ano 2018 como o ano dessa reinvenção e fala de «reinvenção da confiança dos portugueses na sua segurança». Para além de todo o alcance político e administrativo desta mensagem, apraz-me sublinhar como é importante, para que os anos e os dias sejam realmente novos, a reinvenção da confiança. Não tanto nas estruturas, mas nos rostos que estão por detrás delas. Não há estruturas sem rostos. É reconstruindo a confiança nos outros que construímos a segurança.
Foi o Pe. Telmo Ferraz que me fez compreender como a confiança é indispensável na pedagogia. Uma confiança sincera e lúcida colocada em tantas pessoas que parece terem irrompido na nossa vida com a simples e discreta missão de a construírem. Isto diga-se daqueles com quem convivemos, mas também dos outros a quem tivemos acesso pelo que escreveram ou pelo que fizeram. Não posso avaliar o impacto que teve na minha adolescência o testemunho de vida da Madre Teresa de Calcutá. Diga-se que sempre acreditei no Evangelho e na Igreja que ela me apresentou. Nem consigo alcançar o horizonte que o testamento espiritual do Pe. Christian de Chergè me veio abrir já depois de concluídos os meus estudos, que encontraram naquela simples página uma chave hermenêutica. Ofereceu-me esse trapista, em linguagem poética e densa, a esperança de um dia conseguir ler a realidade com os olhos mergulhados no olhar de Deus e ver tudo iluminado pela Páscoa de Cristo. Esta esperança não tem somente concretização na vida futura dos cristãos, mas muda a forma de olhar o mundo, os outros, a realidade, ou seja, a forma de estar e de ser no aqui e no agora. Essa esperança é já concretizável pela capacidade de nos aproximar de Cristo que nos transfigura o olhar. Da visão da realidade iluminada pelo Seu Evangelho passamos à vida pascal, ao dom de nós mesmos. Tentar olhar a realidade assim é dizer, com Valter Hugo Mãe e com tantos, que «o paraíso são os outros». É certo que algumas vidas parecem contradizer esta expressão, o que acresce em responsabilidade à vocação comum de ser efetivamente paraíso para os outros. Que neste ano, à reinvenção do pessimismo sobre os outros suceda a reinvenção da confiança nos outros.