O ponto de interrogação turco

De todos os acontecimentos mundiais dos últimos 15 dias, o que mais me preocupa é o dos factos que se sucederam ao suposto golpe de estado na Turquia por indiciarem uma escalada de influência religiosa na governação do Estado Turco.
O Estado Turco, fundado em 1923, teve no projecto da sua fundação uma orientação laica e foram os militares que conseguiram manter essa orientação apesar de diferentes e várias tentativas de instaurar a predominância teocrática na governação. Foi com este projecto laico que a Turquia se tornou membro fundador da NATO, em 1948, e foi ainda com ele que lhe foram prometidas as negociações, nunca iniciadas, para a entrada na União Europeia. Foi com base nestes pressupostos que a Turquia se tornou na potência regional mais importante no mundo e conseguiu manter uma relativa estabilidade nos Próximo e Médio Oriente não apenas pela sua relação com o mundo árabe mas também com a União Soviética, primeiro, e, desde 1990, com a Rússia.
A ascensão de uma escalada religiosa islâmica na governação turca, através da reacção a um suposto golpe de estado que cada vez mais analistas internacionais interpretam como orquestrado pelos próprios Presidente e Primeiro-Ministro turcos, gera uma imensa onda de preocupações pela radicalização religiosa e civilizacional que estão subjacentes aos actos pós-golpe. Tornar-se-á a Turquia num estado teocrático? De sentido radical ou moderado? Em qualquer dos casos, que lugar pode ter na NATO um tal estado? Como ficarão as relações entre o Mundo Islâmico e o Ocidente se tal radicalização acontecer? O que acontecerá ao arsenal militar e atómico da NATO instalado no país? Como ficarão as relações estratégicas e os equilíbrios regionais? Como ficará a própria NATO?
Estes factos são muito mais relevantes do que o atentado de Nice, em França, e os assassinatos de Munique, na Alemanha. A Turquia é um país com um exército, uma marinha e uma força aérea de 500.000 soldados, muito bem equipados. O mundo ficará sem um país regulador regional se a Turquia cair para o lado islâmico. De aqui, a minha preocupação.
Isto preocupa-me mais do que a tragicomédia das sanções a Portugal pelo não cumprimento irresponsável da ratio do défice em 2015 e do que os problemas da integração das comunidades árabes e islâmicas em França, na Grã-Bretanha, na Alemanha, na Holanda, na Bélgica, na Dinamarca, na Suíca e na Suécia. Estes problemas de integração são sistémicos. Foram a irresponsabilidade capitalista requerendo mão-de-obra barata e a vontade das esquerdas em recolherem o voto fácil dos imigrantes indefesos que provocaram a «invasão» árabe e islâmica sem que houvesse condições para uma boa integração social e aceitação cultural e política do projecto europeu. Agora, é a revolta dos explorados e dos fanáticos religiosos. A Europa convidou o «inimigo» para dormir em sua casa. Não consigo imaginar como é que isto se vai resolver. Ou, melhor, consigo e sei mas manda a prudência que o não escreva.
Nota final: saiu mais um ranking de instituições de ensino superior, da SCImago. O IPB consolida-se como sétima melhor instituição nacional e melhor politécnico do país. Parabéns!