O Professor e o Pavão

Não gostei, nem esqueço a forma desastrada como Passos Coelho governou o País, muitas centenas de milhares de portugueses também não, por isso mesmo Rui Rio tem a árdua tarefa de convencer os desavindos e os outros que Passos passou levando em sua companhia Maria Luís, ainda o grupo de assessores envernizados leitores de The Economist desconhecedores do País real, por isso a sua calamitosa acção. E, Passos saiu de cena sem ter saído, desta feita pelo alarido suscitado com o convite para vender aulas no Instituo da Junqueira, na qualidade de professor catedrático miliciano (o miliciano é feliz expressão de Fernando Pires na designação de professores destituídos de adequada formação académica e científica). O antigo primeiro-ministro aceitou o convite a acarretar-lhe virulentas censuras de um punhado de alunos e nas coscuvilhices das redes sociais.
Os milicianos estão na génese do Movimento dos Capitães, os milicianos só foram e são tolerados num contexto de guerra, no mais os exércitos a nível dos quadros escolhem militares formados, destros e capazes, concedendo ampla acuidade ao dizer do politólogo Jaime Nogueira Pinto: quem não é competente não se estabelece.
Ora, seja na diplomacia, seja na cúpula das empresas, seja nos círculos desportivos, os ditos milicianos são muito mal vistos, ao modo de excrescências, lembremo-nos das resistências no abafado e intriguista universo circular aquando da nomeação dos denominados embaixadores políticos, mesmo quando eles possuíam a craveira intelectual de José Cutileiro, o nervo literário de Álvaro Guerra e José Fernandes Fafe, sem esquecer Maria de Lourdes Pintassilgo. E, aqui chegado, bate o ponto não o ponteiro da sala de aula em Passos Coelho.
É verdade, não possui galões nem estrelas nos ombros de rango académico, é desprovido de currículo científico, não se lhe conhecem trabalhos de investigação sobre isto ou aquilo, no entanto, o ter desempenhado o alto cargo de primeiro-ministro durante quatro anos abonou-lhe forte experiência sobre o funcionamento das instituições, grosso bornal de conhecimentos relativamente ao devir político nos vários escalões da administração pública, ainda na construção de modelos e linguagens negociais na afirmação e defesa dos interesses nacionais. Por assim ser entendo perfeitamente a formulação do convite, cousa vulgar noutros países, mesmo na Rússia nacionalista do Sr. Putin, recordo a contratação de antigo chanceler alemão pela Gasprom.
Nunca o invejoso medrou, nem quem ao pé dele morou adverte o rifoneiro.
De talante bem diverso, o da presumida pesporrência, o efeito pavão na mentalidade de Feliciano Barreiras Duarte. Já escrevi sobre os pavões humanos de plumagem autêntica e duvidosa. De qualquer forma de pavoneamento. Ora, não por acaso as Leis dietéticas do Talmude proíbem o consumo da flamante ave, por ser…bonita. Só que relativamente aos pavões falantes obrigamo-nos a ouvi-los, a ler os seus livros, a ouvir as suas composições, a olhar as suas obras de arte, a apreciar os seus preparos culinários quando possuem talento, em numerosos casos atingem a craveira de génios. Não é o caso do deputado Feliciano (conheço-o bem na forma e no conteúdo) émulo de Miguel Relvas, doutorado isso sim na escola da JSD, para o bem e para o mal.
O rapaz Duarte bom saltador de barreiras de maneira a galgar posições nas listas para deputados não teceu a façanha por menos – doutorando em Berkeley – a oitocentista, caríssima e por tal elitista Universidade da Califórnia, onde a avó do meu filho mais velho trabalhou durante anos, e vários economistas portugueses de relevo se doutoraram.
A glória é efémera e vã, no respeitante a Barreiras Duarte a risível e ridícula glória de ser exemplo do provérbio – quem o alheio veste, na praça o despe – numa clara imitação do companheiro Relvas, trazendo incómodos no tocante a certificação política a Rui Rio. Era escusado
Armando Fernandes
PS. Miliciano possui outras conotações, não de graduação