O Rio da ideologia e o rio da acção política

Este artigo é sobre Rui Rio, sobre o PSD e sobre a acção meso-política (luta entre grupos de uma organização), a nível partidário interno do PSD.
 
Rui Rio foi eleito Presidente do PSD em eleições directas, no dia 13 de Janeiro de 2018, e a sua moção foi aclamada em Congresso do Partido, ocorrido entre 16 a 18 de Fevereiro do mesmo ano. No entanto, este mesmo Congresso deu conta de seis grupos de coligação interna (listas) na luta por lugares nos órgãos nacionais. E mesmo o até há uma semana líder do Grupo Parlamentar na Assembleia da República, Hugo Soares, fez questão de sublinhar, no mesmo Congresso, as suas diferenças, e até oposição, ao actual Presidente. Para piorar o cenário, Fernando Negrão, o recém-eleito líder do Grupo Parlamentar, só obteve 39,4% dos votos dos deputados nacionais do PSD, os quais, com este resultado, propuseram a reivindicação de uma autonomia política relativa face à liderança nacional do Partido.
Rui Rio foi brilhante nos seus discursos no Congresso deste mês. Foi um Rio de ideologia social-democrata europeia dos gloriosos 30 anos do Século XX (1946-1975) e de resistência às investidas do neoliberalismo económico instalado no mundo a partir de 1991. Interroguei-me várias vezes se não estaria a ouvir Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Marcelo Rebelo de Sousa, Carlos da Mota Pinto e as teorias da social-democracia como via para o socialismo plasmadas no Programa do PPD, em 1975.
Porém, entre a teoria e a prática, que o mesmo é dizer entre a ideologia e a acção políticas, vão distâncias variáveis conforme: 1) o grau de adequabilidade da teoria à acção prática; 2) os contextos concretos que exigem mudança da teoria; 3) os obstáculos surgidos na acção por agentes-outros, desejosos de provocar dificuldades; 4) a capacidade de garantia de coerência programática por parte do líder; 5) a mudança da própria realidade política em que se age e actua.
Eu nunca tinha visto, até hoje, um líder recém-eleito ser tão contestado no interior de um partido. Para o observador descomprometido, dá a impressão que as elites internas do PSD estão mais interessadas em fazer oposição ao líder do partido do que ao partido que é Governo, o PS. Fica a ideia de que Rui Rio não foi «baptizado» no PSD, que é um «cristão-novo», e que, vindo do Norte, é um intruso nos «costumes» intriguistas e de arranjismos lisboetas. Por isso, fica ainda a impressão de que muitos líderes intermédios do PSD estão trocar a oposição ao PS pela luta pelo seu lugarzinho na estrutura do Partido, lugarzinho que se esboroará se o Partido não ganhar as próximas eleições legislativas.
É verdade que Rui Rio não terá sabido navegar no rio da acção política. O ter querido afirmar a teoria do líder forte e, sobretudo, a sua autoridade a todo o custo, pode ter comprometido a necessária cultura de compromisso interno mas nada justifica o alarido e o contravapor internos que lhe são movidos.