O Sabor e o Tua

Juntamente com o Douro, o Sabor e o Tua são os rios que marcaram, tal como a muitos nordestinos da minha geração, a minha juventude. Não só por eles, mas igualmente pelas linhas de caminho-de-ferro associadas. Nessa altura ainda circulavam em todas elas, composições com vagões de mercadorias e de passageiros, com bancos de madeira, puxadas por possantes e exuberantes locomotivas a vapor. Manchavam o céu que na minha recordação será sempre azul claro e brilhante, com colunas de fumo negro da combustão do carvão com o seu cheiro intenso e característico e com lufadas esbranquiçadas de vapor de água para prevenir que a caldeira entrasse em sobrepressão. Pontuavam as chegadas e partidas com estridentes silvos que ecoavam pelos vales apertados desenhados ao longo dos tempos pelos seus escultores aquáticos. Do Douro persiste na memória a grandeza austera e da beleza telúrica pré-barragens, com os magalitos graníticos a espreguiçarem-se em largas massas de pedra ou a erguerem-se abruptamente em despenhadeiros com enormes cascatas que se suicidavam sobre o rio lá ao fundo inquieto e apressado. Do Tua lembro sobretudo a primeira viagem entre o Cachão e Bragança, interminável e fundacional de amizades com continuo a cultivar (com saudades do colega que entretanto de forma dramática nos deixou). No Sabor, como não recordar as automotoras, adaptadas de outros veículos, que dançavam em todas e cada uma das curvas entre o Pocinho e Moncorvo e que sendo duas, a segunda só poderia iniciar a viagem ate Duas Igrejas depois de a primeira ter entrado na estação ferroviária da terra do ferro. Havia o risco de poder parar a meio e assim sendo, já não teria potencia para reiniciar viagem tendo que regressar, às arrecuas ate à estação de origem. Nunca presenciei tal acontecimento mas eram inúmeros os que o garantiam, muitos deles afirmando terem observado tal facto.
A modernidade afetou-as a todas, com impactos negativos no seu anterior funcionamento. A que mais sofreu foi a do Sabor, que fechou completamente. A do Douro mantém nos limites mínimos a operacionalidade entre o Pocinho e Campanhã. A do Tua sofreu várias amputações, esteve quase condenada mas vai resistir entre a Brunheda e Mirandela com interface fluvial ate ao Tua, com o apoio e patrocínio da EDP. A barragem que lhe comeu dezoito quilómetros pode ser, no final de contas, a boia de salvação que impede o seu afogamento total.
Não sei se teria sido possível negociar igual contrapartida para a linha do Sabor pelas duas barragens neste rio, embora pareça que no capítulo das compensações a elétrica está a ser mais “generosa” com as gentes da Terra Quente que com a população do Douro Superior. Também não sei se é útil ou sequer possível reabrir o dossier. Contudo isso não pode obrigar-nos a fechar os olhos à realidade.
Foi publicado um estudo elaborado pelo nordestino Daniel Conde sobre a viabilidade da linha do Sabor. Fê-lo, tanto quanto sei, sem que outros interesses o movam, que não seja dar um contributo para o desenvolvimento regional. Só isso justificaria que o ouvissem todos os autarcas afetados pela respetiva infraestrutura. A possibilidade de reativação das minas de ferro e da necessidade de resolver o “eterno” problema do transporte do minério vem acrescentar motivos a tal audição.