O Senhor Contente e o Senhor Feliz

Em tempos, penso que nos idos anos 80 a 84 do Século XX, passou uma série na RTP 1, na altura ainda a preto e branco, em que Badaró e Nicolau Brainer, ambos já falecidos, protagonizavam, um o Senhor Feliz e outro o Senhor Contente. O objectivo da série era divertir o público, em horário nobre, através de humor fino, bem educado e bem falado, onde tudo (sobretudo a vida social e política) podia ser objecto de possível diversão. Que saudades desse tempo!
Mais tarde, nos anos 1997 a 2002, a empresa Mandala presenteou-nos com uma série de humor de muito bom estilo e nível, a Contra-Informação, com efeitos de divertimento e formativos também muito fortes, com a qual o Dr. Durão Barroso não se soube dar bem.
As figuras do Senhor Contente e do Senhor Feliz, desde a tomada de posse do XXI Governo Constitucional, em 26 de Novembro de 2016, presidido por António Costa, e da posse do quarto Presidente da República do tempo constitucional democrático, em 9 de Março de 2016, Marcelo Rebelo de Sousa, parece serem protagonizadas por estas duas amigas e paternais figuras.
Esperava-se de Marcelo Rebelo de Sousa um maior distanciamento em relação ao Governo, não com o ar sisudo e obtuso de Aníbal Cavaco Silva ou com o ar intrometido e picardeico de Jorge Sampaio nem com o cortejo presidencial «domjoãoquinteano» de Mário Soares mas um distanciamento crítico suficiente para se perceber que ele, Marcelo, sustenta o Governo porque é necessário à estabilidade institucional e à imagem de bons costumes perante a Europa e os mercados financeiros, com incidência nas agências de rating mas, atenção, o Presidente é uma figura de reserva, institucional e moral, com a qual podemos contar para qualquer eventualidade.
Com a sua «presidência de afectos», Marcelo R. Sousa tem desvalorizado a própria função presidencial, colando-a à da governação, parecendo, muitas vezes, o porta-voz desta. Eu sei que o papel do Presidente da República, no Portugal democrático da III República (desde 1976) foi copiado do da Constituição de 1933. O Presidente da República é uma figura decorativa, uma mera reserva da autoridade do Estado ou então uma figura cheia de afecto ou sex appeal que mobiliza a «nação», conceito que, na linguagem de Salazar, equivalia ao de sociedade civil, importando-o do restauracionismo francês, particularmente do Abade de Mably e de Chateaubriand.
Por isso, a postura de Marcelo R. Sousa, enquanto Presidente da República, pauta-se por uma busca de legitimidade da função presidencial como se esta estivesse ferida de morte, privada de conteúdo substantivo e de uma exposição pública conferindo grande importância ao seu detentor, com um passado mediático sob os holofotes das sociedades política e do jet-set. Na sua ausência, Marcelo R. Sousa como que tem horror ao vazio e parece fazer de Senhor Contente ao lado do Senhor Feliz, o Primeiro-Ministro, Dr. António Costa, cuja escola luso-goesa lhe ensinou a manejar todas as artes das relações sociais da intriga e de geringonçar o poder na Côrte.