O silencioso ruído da campanha eleitoral

Pode ser que as máquinas partidárias andem inquietas, mexeriqueiras e metediças mas o cidadão pacato quase não dá por nada. Pode ser que seja porque as pessoas já não liguem à propaganda dos vendedores de ilusões e prefiram ficar em casa a cuidar dos seus problemas e dos seus trapinhos. Que isto, apesar dos Srs. Costa e Centeno dizerem que está a correr bem, o dinheiro não abunda nos bolsos dos contribuintes-cidadãos e eleitores.
Pois, por agora, o maior ruído é o do recenseamento eleitoral. Há freguesias com muitas dezenas de falsos residentes. Dizem que é tudo legal porque, logo após a ratificação dos cadernos eleitorais, podem os mesmos eleitores voltar para a residência anterior até porque o Presidente da Mesa de voto não lhes pode controlar a residência porque ela não consta do novel cartão de cidadão, essa maravilha virtual que só serve para trazermos os números de identificação de beneficiário do sistema de saúde, fiscal de contribuinte e beneficiário da segurança social permanentemente connosco. Serve ainda o ditoso cartão para trazermos o nosso número de indivíduo, com existência legal e com vida. Por excesso de zelo dos legisladores priva-nos o cartão de cidadão do nosso «gozo pacífico da liberdade» (Benjamin Constant) pois, a partir dele, tudo é controlável na nossa vida pelas administrações. Tudo menos a residência, invisível a quem não esteja autorizado a entrar nas emaranhadas entranhas da virtualidade informática.
Assim, a mentira da residência eleitoral torna-se verdade virtual considerada verdade real pela certificação administrativa dos cadernos eleitorais. Mesmo que se saiba que há várias pessoas – por vezes, muitas – a viver na mesma casa. E eu que pensava e tinha por adquirido que a informática e os sistemas de informação a ela associados eram as melhores formas de controlar as pessoas. Afinal, também permite torná-las reais sendo elas irreais. Permite torná-las presentes estando elas ausentes. Permite torná-las verdadeiras mesmo que sejam uma grande mentira. Pelo menos nas eleições autárquicas, onde os interesses se misturam com a amizade e onde as pessoas das cidades e vilas se mudam, qual regresso ao éden originário, para o mundo rural. Pelo menos assim, aumentando ficticiamente os eleitores, as freguesias não morrem, dizem alguns. O mal só acontecerá se se substituir o eleitor pelo habitante, continuam.
Quanto ao conhecimento dos candidatos, está tudo calmo. Pela minha rua ainda só passou a comitiva do PSD, bem recheada de apoiantes e sem alarido. A candidatura da CDU e a do CDS/PP enviaram uma cartinha. Dos outros ainda não reza a história da minha caixa do correio. Que bom que é estar na posição de observador. Permite-me gozar a paz e o silêncio. É pena que não me impeça de ver os males do mundo.