O TEXTO E O CONTEXTO

Ricardo Araújo Pereira fez uma excelente rábula acerca do alarido que se gerou à volta de uma notícia trazida à praça pública, salvo erro, pelo Jornal O Público sobre uns Blocos de Atividades editados pela Porto Editora e que seriam discriminatórios. Insurge-se o humorista e bem pelo facto de que a suposta análise do autor da notícia e de todas as restantes notícias e indignações se basearem em apenas duas páginas em que, reconhecidamente, um exercício para meninos seria de dificuldade superior ao equivalente no Bloco destinado às meninas. Mas esse é apenas um de vários exercícios que serão, regra geral, idênticos, havendo até, para compensar, outros exercícios em que acontece exatamente o contrário. Daí que analisando apenas duas páginas seja óbvio e evidente que há discriminação, mas se analisado o conjunto, tal não é honestamente possível, pois que se se escolherem outras a conclusão é exatamente a oposta.
O assunto foi tratado e, acho, encerrado.
Fica a conclusão.
Devia ficar o exemplo.
Ora acontece que, na edição seguinte do mesmo programa “O Governo Sombra”, o mesmo Ricardo Araújo Pereira não se coibe de deitar gasolina para a “indignação facebookiana” da semana com base em “suporte documental” igualmente parcial e com afirmações retiradas do contexto.
Foi enviado para o Jornal de Notícias e por este divulgado um vídeo cuja autoria desconheço e que não consegui identificar (ao contrário dos Blocos da Porto Editora cujo desconhecimento autoral durou pouco) em que se mostravam pães cortados ao meio e sem nada dentro como sendo refeições servidas a bombeiros em missão de combate ao fogo. Tenho de aceitar como verdadeiras as imagens (seria impensável que alguém andasse a fazer montagens e as espalhasse demagogicamente com intuitos baixíssimos) e lamentáveis. É inaceitável tal tratamento. Mas obviamente que não é, não pode ser, a regra do apoio prestado, por estar contratualizado, ás forças da paz em combate ao inferno dos fogos. Foi isso, a meu ver que o Secretário de Estado, Jorge Gomes reconheceu na entrevista que deu. Que esta situação é inaceitável, que haverá um rigoroso inquérito para apurar e punir estas atitudes, mas que não é a regra. A regra é outra. A regra é servir boas refeições aos bombeiros e ele que os tem acompanhado para todo o lado, testemunha essa mesma qualidade. Isto é lógico e acertado.
Contudo, retiradas as afirmações do governante do contexto e colocando-as ao lado de uma situação perfeitamente desprezível e a todos os títulos condenável, acaba por se dar a impressão que enquanto os sacrificados dos operacionais são tratados a pão e água, o Secretário de Estado se banqueteia no teatro de operações. E isto é absolutamente execrável. Condenável a todos os títulos.
Todos os que o conhecem sabem bem que Jorge Gomes é um homem sério, empenhado, competente e comprometido, como ninguém, com a causa da prevenção e combate aos fogos florestais. Estou certo que a pasta que lhe foi entregue resulta precisamente da sua competência e experiência passadas, ao contrário de outros que se “especializaram” por causa da tarefa que lhe coube em sorte.