Obrigado nós…

Desde sempre, desde os inícios da Humanidade, a força do grupo fez vingar a espécie e, a partir daí, as rivalidades agigantaram-se. A união, de iguais, de seitas, de clubes, de tribos, de partidos, da Família, das religiões, todos os ajuntamentos servem a socialização, dão alma. A Família é, por excelência, o grupo mais confortável pois que, não existindo ou mal estruturada, desequilibra, angustia.
A linha da vida, da minha, vai de Felgueiras a Lisboa mas, no meandro, enamorei-me de Sedielos, Porto, Sendim da Ribeira, Assafora e Redondo. Em todas estas terras-ama, feitas de gentes que me construíram, que me inspiram e dão forças nas horas do desespero, em todas tropecei num negócio familiar, dos que trespassam os tempos, de pais para filhos, ganhando o respeito do meio, do burgo, da aldeia, do sítio.
Falo das mercearias, dos lugares, dos sótãos, das tabernas, das papelarias e, algumas, com todas aquelas valências. Em todos haveria, no servir, no mínimo, dois familiares. Bolhãozinho em Felgueiras, Pintos no Porto, Silvas em Sedielos, Cordeiros em Sendim da Ribeira e Alves no Redondo. Porque todos estes locais fazem parte do meu crescimento, trago-os colados ao corpo e à mente, em todos entrei para comprar, gastei dinheiro meu e de meus pais mas, de todos, trouxe afectos, presentes, de graça ou, no limite, em troca dos meus.
Bolhãozinho em Felgueiras, ficava nas traseiras da nossa casa, pelo meio apenas o Campo-da-Feira ali no sopé do Monte de Santa Quitéria, mesmo nas suas fraldas. Ali fui centenas de vezes em demanda dos quartilhos de azeite ou petróleo, dum cartucho de açúcar, dumas postas de bacalhau e, para mim, de meia dúzia de confeitos, multicores, autênticas bombas de açúcar. Os Bolhãozinho eram Família acarinhada por Margaride, freguesia principal do concelho de Felgueiras, o tal do Pão-de-Ló, e ali, atrás do balcão, sentia-se a omnipresença do pai sempre de braço-dado com um dos filhos pois que se revezavam nas inúmeras tarefas que o negócio exigia. Porque me davam sempre dois ou três confeitos na despedida habituei-me à troca de palavras no momento: ao meu bom dia e obrigado respondiam sempre – obrigado nós. Espanto meu que, em todos os outros lugares já mencionados, à saída ouvia essa gratidão pela escolha.
Até que um dia, há cerca de quinze anos, fui convidado por grupo amigos, da área do Direito e da Justiça, a eles juntar-me numa volta envolvendo Nossa Senhora da Lapa (ponto de encontro), Penedono, Marialva e Trancoso. Acedi de bom grado, encontrava-me em Trás-os-Montes e o inesperado esperava-me em Trancoso. Fui, como sempre, a estabelecimento da velha guarda, á procura dos restos de stock dos mimos da escola primária: cadernos de duas linhas, ardósias, ponteiros, aguças, safas e tantas outras coisas, Nada, mesmo nada, apenas um velhinho aconchegado em almofadas e enterrado num antigo cadeirão. Restavam ele, o soberbo e lustroso balcão e miudezas nas enormes prateleiras. Apesar de completamente só acompanhado de imenso pó respondeu ao meu obrigado com um saudoso: - Obrigado nós