A origem da aldeia da Novena da Senhora da Serra: -- A Vila de Rebordãos fugiu para a serra

(…) Ora, se atendermos à magnificência da obra, se considerarmos a distância de duas ou três léguas em que se acha a pedra de cantaria que nela se consumiu (…) se calcularmos o número de carretos que desta pedra seriam necessários; se repararmos na elevação da serra, coberta de névoa a maior parte do ano (…) se ponderarmos a distância em que ficam os povos circunvizinhos, que de todos é íngreme a subida, sumamente custosa para as conduções e transportes de gente; se observarmos enfim o rigor do clima, as asperezas do sítio, a violência dos ventos, o ímpeto das chuvas e a frequência das neves (…) – não pode deixar de lembrar-nos que algum acontecimento extraordinário e sobrenatural tocou vivamente o coração daqueles antigos povos e os induziu a empreender e a executar, contra tantos obstáculos reunidos, uma obra desta natureza. (Sepúlveda, Abade de Rebordãos, 1761-1851, sobre a construção da Capela da Senhora da Serra, citado por Campos,1983, 23).
1. A minha promessa do ano passado à Senhora da Serra.
No Verão de 1960, arrumado o primeiro ano do Liceu, a minha mãe, franzindo carinhosamente a face, anunciou-me a feliz novidade, que andava há uns tempos para me dar... Olha, no fim de Agosto, vais com a tua madrinha de novenas para a Serra. É o prémio de teres passado de ano. São as tuas férias, sempre que ficares bem, lá estarás, nove dias, junto de Nossa Senhora.

Como naufraguei no terceiro ano, fiquei preso ao pelourinho da labuta agrícola do fim do Verão, a pingar suor, lembrando-me, com saudade, das missas matinais nos altares laterais da Capela, onde costumava ajudar, ainda em latim, e dos desafios de futebol, em frente de Santa Teresinha, que disputávamos com os Padres Capuchinhos – os pregadores anuais da novena. Não tendo voltado o R vermelho às pautas de fim de ano, regressava anualmente ao cimo da montanha, onde completei mais de um lustro de novenas, ficando um devoto fiel de Nossa Senhora da Serra.  

Anos depois, na Universidade, quando me encontrei, nos corredores da Filosofia, com Epicuro, Comte, Marx e Nietzsche, entre outros racionalistas astutos, a minha fé teria baqueado, sem o apoio do corrimão, seguro, de boa madeira de castanho, construído na minha juventude, na companhia da Senhora da Serra.
Regressado a Penates, ou seja, à Casa dos Pais, como diziam os romanos, voltei, 57 anos depois, em 2017, de novenas à Senhora da Serra, agora acompanhado da Amélia e dos netos. Uma tarde, ouvi o nosso Bispo, D. José Cordeiro, dar as boas vindas a um numeroso grupo de peregrinos, que, tendo partido ainda de noite das suas terras, tinha acabado de escalar o cimo da cordilheira, a pé, cumprindo as suas promessas. Na prédica, enfatizando o carácter único das novenas da Senhora da Serra, referia que, nas conversas com os outros bispos, todos ficavam admirados quando lhes contava que na sua diocese havia um santuário mariano, no cume da Serra da Nogueira, que, durante nove dias, se transformava numa aldeia permanente, com uma população de cerca de mil pessoas, fazendo a sua vida normal, comendo, rezando, convivendo e dormindo, a mais de mil e trezentos metros de altitude.  

Uma noite, ao entrar no quartel, encontrei-me, por acaso, com o pregador da novena, o Dr. Paulo Figueiró, que, nas escadas do edifício, sorvia, deliciado, o bafo da aragem, que soprava fresca, na companhia de uma lua tão intensa que parecia pousada sobre a touca da montanha, acentuando os contornos e volumes da aldeia da Senhora, coroada pela Capela. Numa conversa longa, debatemos também a singularidade, aquilo que faz a diferença das novenas da Serra: ou seja, que acontecimento extraordinário -- como se interrogou o Abade de Sepúlveda há dois séculos -- teria tocado o coração do povo antigo da Vila de Rebordãos e de outras aldeias da serra, induzindo-o numa devoção a Nossa Senhora tão profunda que decidiu, todos os anos, deixar a labuta agrícola das suas casas, a léguas de distância, para ficar nove dias junto da Virgem Maria, no cimo de uma montanha?
Quando me despedi do Sr. Reitor do Seminário da Guarda, uma vontade, lenta e persistente, estava a tomar conta de mim, afoitando-me assim, Ouve lá, antes das próximas novenas, tens de encontrar uma explicação histórica para este comportamento humano extraordinário, que se iniciou há séculos… Quando adormeci, a promessa a Nossa Senhora estava feita. É do cumprimento dela que estou a dar conta aos leitores.

A honestidade científica obriga-nos, antes de avançarmos, a referir o que já se sabe sobre este tema e quem produziu tal conhecimento. Deve assim ficar claro que não nos limitámos a apertar um feixe de informação alheia, apresentado como nosso. Por outro lado, os leitores terão de ser capazes de concluir se conseguimos, partindo do que outros investigadores já escreveram antes, levar mais longe o conhecimento sobre este ponto. É esta a função da investigação. Pouco interesse científico ficará deste texto se não acrescentarmos novos dados sobre a origem da Novena da Senhora da Serra.  
2. O que já se escreveu sobre a Senhora da Serra.
Antes de partirmos, numa comprida viagem temporal de sete séculos, em busca do acontecimento extraordinário, que, segundo o Abade Sepúlveda, teria estado na origem do Santuário da Senhora da Serra, temos, primeiro, de informar os leitores do que já se escreveu sobre este tema. Lugar Sagrado muito antigo, já vários autores se foram referindo, na cadeia do tempo, à Senhora da Serra. O primeiro foi o Dr. João de Barros, escrivão da câmara de D. João III, que visitou o Santuário, há quase cinco séculos, deixando expressas as suas impressões de viagem no livro Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, datado de 1549. Escreveu ele que (…) a duas léguas (de Bragança) está a Hermida de Nossa Senhora da Serra que há pouco se fundou de esmollas e ofertas e se fez uma casa tamanha como um mosteiro, grande de três naves, aonde acorre grande número de gente (…) (Barros, 1919, 121).
Tomemos nota desta referência à monumentalidade da Capela da Senhora da Serra, porque foi a dimensão deste templo, tão precoce, saído ainda dos cânones medievais, que constituiu a ponta do fio deste nosso estudo. Foi premindo este interruptor que se acenderam todas as outras luzes, permitindo-nos avistar o acontecimento extraordinário, sucedido no séc. XIV na antiga vila de Rebordãos… Mas já lá vamos, porque, antes, ainda queremos citar mais alguns investigadores, que escreveram antes de nós sobre a Senhora da Serra.

A segunda referência a este templo transmontano, século e meio depois da do Dr. João de Barros, foi a do frade Agostinho de Santa Maria, no seu Santuário Mariano, uma espécie de enciclopédia de todas as Capelas de Nossa Senhora, existentes em Portugal, nos finais do séc. XVII. Exclusivamente baseado na tradição, transporta-nos ao tempo dos godos, ou seja, aos sécs. V-VIII, antes dos mouros e da formação do Reino de Portugal, quando teria sido erguida a primeira capela, após o aparecimento da Senhora a uma pastorinha. Informa-nos também que, no seu tempo, isto é, nos inícios do séc. XVIII, já se fazia a novena, antes da festa a 8 de Setembro, com grande concurso de gente. A feira, no mesmo dia, ampliava a multidão no cimo da Serra da Nogueira.

Sobre a espacialidade da Capela, acentuava que era uma ermida muito grande, com três naves, dividida com dez colunas de pedra, cinco de cada parte. A imagem da Senhora, com o Menino Jesus nos braços, era de roca e de vestidos, tendo de estatura cinco palmos. (Santa Maria citado por Campos, 19,20,1983). Adiante demonstramos que este frade se enganou nas dimensões da Igreja da Senhora da Serra, medindo-as por baixo. Ou ele ou quem o informou, porque o autor, ao contrário de Barros, nunca avistou o Santuário.

Em 1758, paroquiava a Vila de Rebordãos o Abade Caetano Pinto de Morais. Na memória, enviada ao Governo do Marquês de Pombal, redigida no dia 6 de Maio daquele ano, escreveu que (…) no alto da serra havia hum templo dedicado a Nossa Senhora das Neves, de fundação tão antiga, que hoje se ignora. Está formado em três naves (…). No altar mor está exposta hua imagem da mesma Senhora e no colateral da parte do Evangelho outra imagem antiquíssima da Senhora e no da parte da Epístola a de Santo António. Contiguo a esta igreja há um hospício distribuído em 6 quarteis, de que hoje só são habitaveis dous. (Capela et alii, 2007, 317).
Mas o mais célebre Abade de Rebordãos foi Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda, cuja firmeza e auctoritas afinavam pelo timbre do irmão -- o famoso general que lançou o movimento da expulsão dos franceses de Trás-os-Montes. Tomou posse da Abadia em 11 de Fevereiro de 1790 e faleceu, com noventa anos, no passal da villa de Rebordãos, na madrugada de 28 de Setembro de 1851, ao leme da sua actividade sacerdotal, que já levava sessenta e seis anos (Alves, 2000, 516). Polemista temido, a sua pena zurzia, a bordoadas de sarcasmo, os fariseus do séc. XIX, utilizando uma linguagem opulenta e verrinosa que desarmava logo o adversário mais petulante...

Foi indelével a marca que deixou no Santuário da Senhora da Serra. Assim, ao verificar (…) que se tinham introduzido abusos graves pela reunião dos dois sexos, de dia e de noite, no sagrado templo, pensou logo em acabar com tal profanação, propondo ao Bispo da Diocese que imediatamente proibisse tal Novena e Romaria (…) (Sepúlveda citado por Campos, 1983, 41, 42). Mas a Senhora da Serra logo lhe alterou os propósitos, alumiando-lhe o caminho certo: depressa concluiu que os romeiros só dormiam na capela porque não tinham onde se recolher nas noites frias da serra, envolvida de névoa pingante. Decidido, logo tomou em mãos não só restaurar os quatro quartéis que, já em 1758, estavam inabitáveis como também ordenou o levantamento de outros, de raiz, encostando-os aos muros do adro, cuja topografia, mais elevada, dispensava alvenarias dispendiosas.

Deixou-nos também uma análise arquitectónica muito fina da Capela, que, mais à frente, nos ajudará a compreendê-la e daí retirar a consequente leitura histórica sobre a origem da Novena da Senhora da Serra. Enxergando longe, concluiu que o clarão do culto da Virgem, no ponto mais alto da montanha, tinha o seu foco muito antes de 1567, ano em que visitou o Santuário o Bispo de Miranda, D. António Pinheiro. Sobre a visita deste antístite, diz-nos (…) que ela devia ter sido muito posterior em anos, e mesmo em séculos, à fundação do templo e culto de Nossa Senhora da Serra. (Sepúlveda citado por Campos, 1983, 37.) Não se enganou o mais famoso Abade de Rebordãos.

O Abade de Baçal também não podia esquecer-se do Santuário da Senhora da Serra. Diz-nos ele (…) que tão vincada tradição cultual, em tal altitude e tão distante dos povoados, remonta a tempos pré-cristãos, quando foram insculpidas as gravuras rupestres da fraga junto da Fonte da Senhora (…) (Alves, 2000, X, 10).
Outro investigador, que procurou, tal como o Abade Sepúlveda há dois séculos, fazer um estudo de fôlego, sobre a fundação do Santuário e Novena de Nossa Senhora da Serra, foi o Sr. Cónego Campos. E, embora no seu livro, editado em 1983, tenha manifestado a sua (…) pena de não ter encontrado documentos suficientemente capazes de nos levarem com certeza às origens da primitiva ermida de Nossa Senhora da Serra (Campos, 1983, 35), o seu trabalho de pesquisa, pelos dados que facultou a investigadores posteriores, tem enorme interesse científico. A sua transcrição do livro do Abade Sepúlveda, muito minucioso na leitura da arquitectura da Capela nos finais de Setecentos, a lista dos párocos de Rebordãos nos sécs. XIV e XV, extraída de uma certidão autêntica do Arquivo Nacional da Torre do Tombo de Lisboa, e a identificação das quatro imagens da Senhora da Serra, veneradas sucessivamente no Santuário, entre outros pontos, fazem deste trabalho, paciente e meticuloso, um instrumento de estudo extremamente útil para trazer à luz do dia a história do Santuário da Senhora da Serra, soterrada por sedimentos seculares de memórias, muito alteradas pela sucessão de gerações ao longo de sete centúrias.

Por último, aludiremos à Dissertação de Doutoramento em História de Arte, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto pelo mestre Luís Alexandre Rodrigues, edição de 2001. Referindo-se ao Santuário de Nossa Senhora da Serra, ali se escreve que (…) independentemente do seu valor arquitectónico, a sua importância decorre da persistência que esta devoção foi capaz de suscitar desde o séc. XVI (Rodrigues, 2001, 619). E (…) é possível que as variações tipológicas dos elementos de suporte (colunas e pilares) correspondam a outros tantos momentos em que a crescente pressão da piedade popular impôs o acrescentamento da igreja. (ibidem, 621 e 623).

Este investigador informa-nos também que a Confraria de Nossa Senhora da Serra manteve uma actividade creditícia, emprestando dinheiro a alguns confrades, mais necessitados, durante a primeira metade do séc. XVIII. E três mulheres – as ermitoas por viverem nas casas do Padre Ermitão do Santuário – fizeram os respectivos testamentos, manifestando a sua vontade de, falecendo aí, serem enterradas na Igreja da Senhora da Serra. Uma delas decide mesmo legar os seus bens à Virgem, avisando os senhores abades contra quaisquer veleidades futuras, menos limpas, na sua administração…

3. A Capela da Senhora da Serra: o maior templo do Nordeste, na primeira metade do séc. XVI.
Vamos então à leitura espacial da Capela de Nossa Senhora da Serra, o documento mais elucidativo para a compreensão do Santuário e que foi a base a partir da qual concebemos este nosso estudo. Enunciemos, primeiro, um princípio epistemológico básico: sendo certo que, na história da arquitectura, o monumento é sempre o melhor documento, então, quando existe um grande vazio documental, a sua importância científica é ainda maior (Robledo, 2003, 482). Começamos a sua leitura pela análise arquitéctonica, dos inícios do séc. XIX, da autoria do Abade de Sepúlveda. Escreveu ele que (…) todo o vão se divide em três naves por doze colunas de cantaria lavrada, seis de cada lado em iguais distâncias que sustentam todo o tecto do corpo do edifício (…) o arco que divide a Capela-Mor do corpo do templo e o púlpito são da mesma arquitectura das colunas lavradas, cuja arquitectura é a que nos mostra maior antiguidade do edifício (…); três portais de pedra de cantaria, fechados em arco ponteagudo, servem para a sua entrada e comunicação: o das portas principais, o das travessas e o que vai da Capela-Mor para a sacristia. O tecto e pavimento de todo o edifício é de madeira de castanho, hoje totalmente reformado, e só junto ao Altar-Mor e portas principais é o pavimento lageado. (Sepúlveda, citado por Campos, 1983, 26 e 35).

Comparando a Capela, de há cinco séculos atrás, descrita pelo Dr. João de Barros, com a que hoje nos acolhe, arpoamos as seguintes alterações:
a) as três portas do edifício eram fechadas em arco ponteagudo, na descrição de Sepúlveda, ou seja, em arco apontado, tal como o arco triunfal, que divide as três naves da capela-mor. Tire-se daqui já a primeira conclusão: o corpo da capela iniciava-se nas portas principais, em arco apontado e acabava no arco triunfal, igualmente apontado, à entrada da capela-mor, abrindo-se a porta lateral sul também em arco apontado. Logo, estes três elementos arquitectónicos, iguais, os dois primeiros balizantes dos doze suportes das três naves, não deixam espaço epistemológico para entrarem outras reformas dimensionais no templo, desde a sua primeira referência, há cerca de quinhentos anos atrás;

b) entre 1897 e 1939, durante os quarenta e dois anos em que esteve à frente da paróquia de Rebordãos o Abade João Inácio da Costa, construiu-se o coro da igreja (Campos, 1983, 47). Deve estar aqui, na preparação das bases seguras para o lançamento do coro, a razão pela qual, depois das seis colunas, quatro circulares e duas sextavadas, se levantaram os seis grossos pilares seguintes, que tinham de suportar a pressão do coro, intumescido de devotos da Senhora da Serra. Ao contrário dos pilares encorpados, as colunas, de fuste muito fino, não suportariam o alçamento deste pesado primeiro andar da capela. Viram, assim, longe os engenheiros dos finais da Idade Média: o volume de devotos da Senhora da Serra tinha crescido tão rapidamente que, mesmo dispondo de um templo grande de três naves, mais tarde ou mais cedo, o espaço voltaria a faltar. Por isso, o melhor era deixar já, no sítio, os pilares corpulentos do futuro coro. Sublinha-se também a morfologia dos dois pilares, seguintes às duas colunas sextavadas, que remetem para quatro colunelos, cada um em seu canto, tipologia que tem de ser lida ainda à luz da arquitectura gótica. Igualmente, a decoração dos seus dois capitéis é a mesma dos seis das colunas da frente, todos afinando pela mesma manufactura temporal. Nesta acomodação do coro, abriu-se também o óculo, herdeiro da rosácea medieval, por cima das portas principais, que não consta da descrição detalhada do Abade Sepúlveda; a própria patine do granito deste elemento assume tempos recentes; a cornija e as pilastras de granito, que só desenham a fachada principal, reflectem também o período destas obras; a substituição das duas portas, em arco apontado, pelas que hoje utilizamos, em arco redondo, deve ter ocorrido na mesma cronologia; ampliar os vãos de entrada e saída do templo foi o objectivo visado. Nesta reforma, impulsionada pelo Abade João Inácio da Costa, já no tempo dos nossos avós, a construção de novos quartéis terá crescido para além do dobro dos que deixou o Abade de Sepúlveda, nos meados do séc. XIX. Era a resposta a uma procura crescente dos novenistas, depois deste Abade, de pulso forte, ter proibido as dormidas na Capela, como vimos atrás.

Mas, então, a Capela da Senhora da Serra manteve-se, espacialmente, incólume, ao longo dos seus cinco séculos? Não, porque nos meados do séc. XVII, a capela-mor, que o Dr. João de Barros viu nos anos quarenta de Quinhentos, foi demolida e substituída pela actual, mais larga e mais alta. A capela-mor anterior -- que era a pequenina capela primitiva – acabou sendo exígua para as solenidades litúrgicas dos grandes dias de festa. Para além das duas datas gravadas na esquina sul, informando-nos que esta obra decorreu entre 1659 e 1671, o eixo da nova capela-mor não respeitou o do corpo da Igreja, comandado pelo fecho do arco apontado, que divide ambos os espaços. Por outro lado, dado que o arco cruzeiro foi erguido em função da capela-mor anterior – que era a primeira capelinha, mais baixa -- não permite, pela sua reduzida altura, que tenhamos uma vista ampla do retábulo da capela-mor, a partir da entrada pela porta principal. Consequências da junção de dois espaços, erguidos em tempos diferentes, um do séc. XVI, e o outro da centúria seguinte, que os construtores da nova capela-mor não foram capazes de harmonizar.

Do templozinho primitivo, que desempenhou as funções de capela-mor, até à segunda metade do séc. XVII, parece manter-se, ainda hoje, o discreto campanário, em arco redondo, de três singelas peças, sozinho, sem pináculos e quase despido de elementos decorativos. A sua identificação recorta-se facilmente pela sua ínfima dimensão em relação à monumentalidade da nova capela. Um templo majestoso, de três naves, tinha de mostrar um campanário maior, proporcional à envergadura da sua volumetria. Mas outra foi a decisão dos seus construtores: como memória da capelinha original, do séc. XIV, decidiram transferir o seu campanariozinho, muito humilde, para o novo templo. Sete centúrias depois, continua a chamar os devotos da Senhora da Serra, várias vezes ao dia, durante a novena.
Depois da análise que fizemos, auxiliados pelo relatório denso do Abade Sepúlveda, não temos qualquer dúvida que, espacialmente, com excepção da nova capela-mor, do coro e das duas sacristias, a Igreja da Senhora da Serra é a mesma que viu o Dr. João de Barros, há cinco séculos atrás. Mas voltemos a citá-lo, mais em pormenor, para ver se a sua descrição também sustenta a nossa leitura dimensional.

O Dr. João de Barros não era um visitante qualquer. Era doutor em Leis pela Universidade de Coimbra. Tratava-se, portanto, de um homem que escrevia sopesando as palavras, procurando, objectivamente, a realidade, como forma de atingir a verdade da sua explicação.
Vamos acompanhá-lo na sua viagem ao Nordeste Transmontano para sabermos o que ele ortografou de outras igrejas da actual diocese. Começando pela igreja de Moncorvo, escreveu que havia (…) quarenta anos que se começou e não é acabada e sempre trabalhão nela (…) (Barros, 1919, 120). Se aplicarmos a mesma bitola de tempo à construção da Capela da Senhora da Serra, então este templo ainda iniciou os seus fundamentos no ocaso do séc. XV – finais da Idade Média.

Descendo à Vilariça, próximo do abraço de boas vindas do Douro ao Sabor, não se esqueceu de tirar do anonimato e do esquecimento a capela do Roncal, que, embora muito encolhida, ele valorizou pela quantidade de epigrafia romana que forra as suas paredes, referindo que (…) tinha muitos letreiros em pedras (…); de Bragança, içou apenas o mosteiro de S. Francisco, sobre o qual a sua pena não deixou cair um único adjectivo; seguiu-se o mosteiro do Castro de Avelãs (…) que tinha muitos frades e valia hum conto de renda (…); vem depois a descrição do Santuário da Senhora da Serra, (…) que era uma hermida que há pouco se fundou de esmollas e ofertas e se fez hua casa tamanha como hu mosteiro, grande de três naves (…) Repare-se no peso dos adjectivos: a capela, sendo tamanha como um mosteiro, o autor ainda sentiu necessidade de sublinhar, para que não ficassem quaisquer dúvidas da sua monumentalidade, que o templo da serra era grande de três naves; e mais, não só utilizou como termo de comparação um mosteiro, edifício habitualmente amplo, como carregou em dois qualificativos: tamanha e grande. Ou seja, se as três naves, embora já iniciadas aquando da sua visita, tivessem crescido conforme a tipologia que os doze suportes parecem hoje sugerir, então a Capela da Senhora da Serra nunca poderia justificar, nos meados do séc. XVI, a carga faustosa de adjectivos usados pelo visitante. Ainda sobre igrejas, não se esqueceu da de Azinhoso, Mogadouro. Mas, para a sua arquitectura, poupando nos qualificativos, também não pingou nenhum da sua pena.

Concluindo, a descrição da Capela de Nossa Senhora da Serra, radiografada pelo Dr. João de Barros, pouco tempo depois de erguida, há cinco séculos atrás, avaliza a análise espacial que fizemos acima. Sendo assim, este templo era então o maior do actual Distrito de Bragança. A Sé de Miranda, caput da nova diocese, só abre os seus alicerces a partir de 1552, anos depois da visita do Doutor do Porto à Serra e a Paroquial de Moncorvo ainda não estava pronta, apesar de quarenta anos de obras constantes…

4. As pestes dos sécs. XIV e XV: populações em fuga e centenas de aldeias mortas.
Pedimos desculpa aos leitores que nos acompanharam nesta longa caminhada da análise dos pormenores arquitectónicos da Capela da Senhora da Serra. Mas estes detalhes foram decisivos para concluirmos que este templo era o maior do Nordeste Transmontano, na primeira metade do séc. XVI. E, construída, epistemologicamente, esta verdade, vem agora a pergunta óbvia: mas por que razão a igreja maior, nos finais da Idade Média, se levantava no cimo da Serra da Nogueira, a mais de mil e trezentos metros de altitude, nevada de Inverno e envolvida de névoa fria quase todo o ano, e nem na cidade de Bragança despontava a silhueta de um templo que se lhe aproximasse?  

Assim, ao mesmo tempo que, no alto da serra, abria as portas uma igreja tamanha como um mosteiro, cá em baixo, nas abas da montanha, a rica e orgulhosa Vila de Rebordãos apenas dispunha de uma paroquial modestíssima, longe do povo, no lugar do Vale da Igreja, a nascente do bairro de Quintela, afastada do fundo da freguesia. A actual matriz, torreada, no cimo de villa, só viu a luz do dia um século depois da Capela da Serra, ficando-se, mesmo assim, muito mais curta. E todas as igrejas paroquiais, de vilas e aldeias, afinavam, no ocaso da Idade Média, por aquela exiguidade, muito humildes e discretas.
Repetimos, porque o ponto deste texto é só este, muito simples de expor: se a maior igreja da actual diocese se erguia, há quinhentos anos atrás, na coroa da Serra da Nogueira, então temos de concluir que, aqui, havia muita gente, ao mesmo tempo que, lá em baixo, faltava muita. Se formos capazes de alumiar as faces mais sombrias deste paradoxo, está explicado o mistério da origem das Novenas da Senhora da Serra.

Esmiucemos as causas daquela disparidade. Os séculos centrais da Idade Média são marcados por processos de expansão demográfica, (…) que regridem durante os séculos XIV e XV. Daí que dos 70-80 milhões de habitantes na Europa do final do séc. XIII, chega-se a 50-55 milhões, 50 anos depois, e a 35 milhões, decorrido outro meio século. Ou seja, a Europa, Portugal incluído, no espaço de cem anos, vê a sua população reduzida a metade. Este vazio demográfico (…) deixou inúmeras marcas, entre as quais o abandono de centenas de aldeias, como na Alemanha (Wustungen), França (villages désértes), Inglaterra (lost villages), mas também na Espanha e Itália (Girolamo, 2011, 74). Num trabalho em curso, sobre este tema, calculamos que no Distrito de Bragança se tenham perdido também, definitivamente, cerca de metade das aldeias, das existentes antes do flagelo da Peste Negra de 1348. Esta pandemia viajava do Oriente nas pulgas dos ratos e dos homens, em caravanas e navios. Conhecida também como a grande pestilência, grande mortandade e morte negra, caracterizou-se como um quadro nosológico de três formas clínicas: a peste bubónica, a peste pulmonar e a peste septicémica. Se bem que a peste bubónica conduzisse à morte 60 a 90% das pessoas atingidas, no espaço de 5 a 10 dias após o período de incubação, e a septicémica fosse absolutamente letal ao fim de três ou quatro horas depois da inoculação, a forma mais grave do ponto de vista social foi a segunda, a peste pulmonar – devido à sua altíssima contagiosidade, que se transmitia através do ar. Emparedavam-se casas e bairros inteiros, com mortos, moribundos e sãos; enviavam-se, para os monturos, pais a filhos e vice-versa, e doentes ainda vivos (Mattoso, 1993, 340-343).

No Nordeste Transmontano, a terrível gadanha negra também ceifou à vontade, em vilas e aldeias, cuja população, muito mal alimentada, com parcos hábitos de higiene e sem conhecimentos científicos e clínicos, constituiu presa fácil na progressão muito rápida da pandemia. Num documento de 7 de Novembro de 1364, o Rei D. Pedro I dá conta de que o conselho de Bragança lhe transmitira que, antes da primeira peste, havia na vila muitos homens a cavalo e a pé, dos quais apenas sobreviveu menos de um quarto; e que, após a segunda peste, a vila estava ainda mais despovoada (Alves, III, 138-139). Note-se que a pandemia, parecendo extinguir-se, voltava de novo, com recorrências extremamente agudas e mortíferas. Durante mais de um século assim foi. Portugal só começou a ganhar alguns saldos positivos de população -- diferença entre vivos e mortos --, depois de 1472. Nos séculos XIV e XV, qualquer pessoa que atingisse a idade madura havia escapado mais de uma vez a um surto de peste (…). Em Trás-os-Montes, a depressão demográfica foi particularmente sentida nos anos 40 e 50 do séc. XV (Mattoso, ibidem), ou seja, mais de cem anos depois da primeira vaga da peste, que começou a matar no Outono de 1348.
Referimos acima que também, entre nós, desapareceram cerca de 50 % das aldeias, deixadas vazias pelas pestes dos sécs. XIV e XV. Que povoados sacrificados, dos contrafortes nascentes da Serra da Nogueira, vizinhos de Rebordãos, podemos exumar, desenterrando-os do fundo do seu grosso lastro de sedimentos, com sete séculos de fundo?

Por exemplo, entre 1452 e 1478, o Abade do Castro de Avelãs aforou a aldeia de Arufe, a gente que foi buscar a Gralhós, longe da serra (Alves, 2000, 509, 510). Este lugar, pertencente aos frades do Castro, teve de recorrer a moradores vindos de fora para ressuscitar.
Onde não sobreviveu ninguém foi na aldeia vizinha, logo por cima da anterior. Os novos moradores, igualmente procedentes de outros lugares menos castigados pela peste, baptizando-a com um novo nome, de Vila Boa de Arufe, desconheciam a sua denominação original. Completamente erma, com todos os moradores, anteriores à peste, mortos, perdera-se também o fio do seu nome, uma das mais dinâmicas dos cordões nascentes da Serra da Nogueira, durante o séc. XIII (Alves, 2000, 339-416).

Mais à frente, entre Vale de Nogueira e Vila Franca, foi a vez da paróquia, onde mais tarde abancou a maior feira de gado da Terra Fria – o Santuário não menos famoso do Senhor dos Chãos – assistir à morte de todos os seus habitantes e, com eles, também do seu nome. Os poucos colonos, que repovoaram posteriormente esta antiga sede paroquial, tiveram assim de lhe atribuir outra designação, sepultando-se para sempre, na memória oral, a primeira, que a documentação histórica registou, tal como no caso anterior de Vila Boa, entre Rossas e Rebordaínhos (Alves, 2000, 339-416).
Mas, muito mais próximo de Rebordãos, confrontando com o seu termo, a florescente paróquia de Cabanelas, que tinha como anexas, em 1258, Valverde e Failde (Alves, 339-416), foi outra das que perdeu o combate com a mortífera gadanha negra. Transformada numa quinta, o seu termo foi retalhado por S. Pedro, Samil, Rebordãos e Nogueira. Estes quatro exemplos, muito próximos de Rebordãos, mostram-nos um ataque fulminante das pestes da Baixa Idade Média às aldeias da bordadura nascente e sul da Serra da Nogueira, investida pandémica da qual resultou a morte de três e o repovoamento de outra.

5. Rebordãos foge para a Serra: à primeira capelinha, segue-se outra, grande, nunca antes vista.
E Rebordãos, salvou-se? Se vemos hoje a antiga vila, espreguiçando-se sobre as largas dobras tectónicas, que descem da serra, cobertas de carvalhos, com a sua orgulhosa torre sineira no cimo, luzindo de branco, é porque conseguiu escapar às pestes e às guerras. Sublinhamos que a conflitualidade militar, durante os sécs. XIV e XV, também ajudou a morte negra, amontoando mais mortos nos cemitérios e valas comuns. Mas, com que custos, foi possível à vila sobreviver... Vejamos o terror e o martírio a que foi submetida a nobre Villa de Rebordãos, constituída sede de concelho pelo segundo Rei de Portugal, em 1208. Chegamos assim ao acontecimento extraordinário, pressentido pelo Abade Sepúlveda, há dois séculos, como a explicação do Santuário da Senhora da Serra.

Em 30 de Maio de 1447, o Arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, considerando a igreja de Rebordãos de jure devoluto, confirmou aqui, como pároco, Estêvão Domingues, (…) o quall quer tomar o avito do moesteiro de Castro de Avelãs (Marques, 1988, 690). Decifremos esta decisão do antístite de Braga: a paróquia de Rebordãos estava devoluta, isto é, vazia, porque não tinha pároco; daí o empossamento de um candidato, que deu a entender, logo na investidura, preferir tornar-se monge do Mosteiro de Castro de Avelãs a manter-se como pároco da Vila; sublinhemos este substantivo porque Rebordãos, não sendo uma paróquia qualquer, desempenhava as elevadas funções de cabeça de concelho; e, não obstante esta alta posição administrativa, não atraía candidatos a dirigir a sua igreja; por um lado, esta estava vaga havia muito tempo, porque o último pároco, o Padre Gonçalo Afonso, tinha sido apresentado pelo Rei D. Pedro I no dia 1 de Dezembro de 1362 (Campos, 1983, 16), havia já 85 anos; por outro lado, o novo escolhido, logo na confirmação, anunciou não querer ficar; preferia tomar o hábito e recolher-se ao Mosteiro do Castro de Avelãs, mais pingue de rendas… Ou seja, a Vila de Rebordãos estava erma; não tinha fregueses suficientes que somassem a côngrua habitual, que os seus clérigos recebiam antes da peste; era por isso que a igreja não atraía interessados; e esta vacatura, prolongada, já vinha do tempo do Justiceiro, que nomeara o último pároco, quase um século antes.

Depois desta apresentação, de 1362, a Coroa, que era a padroeira da igreja, não voltou a propor, em tempo útil, como lhe competia, novos párocos na Igreja da sua Vila de Rebordãos, deixando assim prescrever os seus direitos de padroado. A manutenção da paróquia, durante tanto tempo sem clérigo – quase um século – acabou por sujeitá-la, por renúncia objectiva dos reis, ao disposto no preceituado na figura jurídica de jure devoluto. Foi ao abrigo desta prerrogativa, do direito canónico, herdada do direito romano, que o Arcebispo de Braga, substituindo-se ao monarca, avocou a si a confirmação do novo padre, em 1447 (A.D.B. Conf., liv. 329, fl. 140). Ora, os monarcas eram extremamente exigentes na administração dos seus direitos de padroado – a apresentação dos párocos das suas igrejas – donde retiravam boa parte das receitas da Coroa. E, se não exerceram este direito, ao longo de dezenas de anos, foi porque a Igreja de Rebordãos, atento o seu número de fregueses, não justificava a nomeação de um clérigo.  

Já tinham passado, entretanto, pelo trono de Portugal quatro reis e Rebordãos sem padre. Dizemos isto porque a peste de 1361-1363, como vimos acima, tinha ceifado também muitas vidas, depois do rasto de mortandade deixada pelas de 1348 e 1356. Provavelmente, o padre, nomeado pelo Rei D. Pedro I, em 1362, teria sido uma das vítimas desta terceira onda de pestilência, que, voltando a atacar em 1361, fez grande mortandade na população de Bragança, como vimos atrás. Em Rebordãos, a catástrofe deve ter sido equivalente, porque, depois daquela data, não se conhece mais nenhuma nomeação para a sua igreja, que continuou desocupada durante oitenta e cinco anos, situação em que se encontrava quando o Arcebispo de Braga fez a confirmação do padre, que logo quis sair. E saiu, porque, quase três anos depois, o mesmo Arcebispo de Braga, vendo que a igreja voltava a estar vaga, anexou a Paróquia de Santa Maria de Rebordãos, na Terra de Bragança, à de S. Mamede de Sortes em 16 de Março de 1450 (Marques, 1988, 282). Se fazia falta mais uma prova de que Rebordãos não tinha gente, aqui está: a vetusta vila, sede de concelho, não gerando recursos para acomodar, sozinha, o seu pároco, ficava a depender de Sortes, onde os poucos vizinhos – se os havia -- tinham de ir à missa.  
A pergunta, que agora temos de fazer, é esta: se a Vila de Rebordãos ficara quase sem ninguém, não gerando recursos para manter o seu pároco, o que tinha acontecido aos seus habitantes? Deixaram-se apanhar pela gadanha da peste ou fugiram? A documentação da época refere que as populações se escondiam nos campos, onde se respirava o ar ainda não contaminado, sendo assim mais difícil à foice negra apanhá-las. Vejamos a situação com que se depararam os enviados do Rei D. João III, quando chegaram a Chaves para recensearem os moradores da vila, século e meio depois da Peste Negra, de 1348, ter começado a encher de mortos as igrejas, adros e valas comuns. (…) a vila de Chaves (…) ao presente está despovoada, não havendo aí ninguém; antes de ser a dita peste viviam na dita vila e seus arrabaldes 385 moradores; destes faleceram oitenta e os mais são fugidos (…) (Freire, 1919, 270). Ou seja, em Chaves, não obstante a fuga para os campos, a peste ainda agadanhou mais de 20% dos moradores – cerca de 300 pessoas – ceifadas por um surto de peste que teria sido mais frouxo do que as pestilências dos dois séculos anteriores, que atacaram em força em Rebordãos e Bragança.

Agora já sabemos quem foram os fundadores -- os fugitivos da peste -- da primitiva capelinha da Senhora da Serra, que foi erguida logo depois do feroz surto de pandemia de 1361-1363, data a partir da qual Rebordãos não voltou a ter pároco proposto pelo rei. Decorrerão cento e trinta e três anos até que D. Manuel I nomeasse um padre para Rebordãos, chegando ao fim a sua anexação a Sortes. Ou seja, enquanto passaram pela coroa portuguesa cinco reis e um interregno, a vila manteve-se sem clérigo. E, quando o Venturoso nomeia finalmente o Padre Álvaro Dias (Campos, 1983, 16), para a paróquia de Rebordãos, no dia 22 de Dezembro de 1495, reflectindo o regresso de alguns fugitivos da serra à vila, já se abriam os alicerces da nova Capela da Senhora, que incorporaria, como capela-mor, o templo primitivo, tão veloz e torrencial tinha sido o afluxo de devotos de Rebordãos, e de outros lugares das faldas da Serra da Nogueira, a procurar a protecção da Virgem Maria, durante os anos letais das pestes. Os fugitivos acreditavam que o ar, mais puro e desinfectado da montanha, os salvaria da morte, que era iminente se ficassem lá em baixo. Mas não confiaram só na fuga e na atmosfera imune da serra. Nesta onda avassaladora de terror, confiaram ainda mais na protecção da Virgem Maria, erguendo-Lhe, à pressa, uma humilde capelinha, onde logo Lhe fizeram as primeiras novenas.

Como escrevemos atrás, as aldeias que, entre outras, foram dizimadas pelas pestes, localizavam-se nos contrafortes nascentes da serra. Assim, para fugirem ao contágio, que no espaço de um ou dois dias trazia a incubação, com morte certa no espaço de 48 a 72 horas (Mattoso, ibidem), os moradores de Rebordãos só podiam escapar à tenaz da peste, que matava a eito na vila e nas aldeias vizinhas, subindo a montanha, tanto mais que, refugiando-se nela, não enfrentavam povoações, já contaminadas, porque não existiam. Só a serra, vazia de população infectada, trazia a sua salvação.
Agora já sabemos por que é que tanta gente tinha sido obrigada a buscar a protecção da serra, ao mesmo tempo que, cá em baixo, vilas e aldeias eram arrasadas pela maior hecatombe, conhecida, da História. Ficamos a compreender também por que razão foi, ali, a mais de mil e trezentos metros de altitude, que, nos finais da Idade Média, se começou a erguer uma capela tamanha como um mosteiro. Assim, enquanto ao cimo da serra acudiam milhares de devotos a orar à Senhora, em Rebordãos, pelo contrário, a paroquial do Vale da Igreja, muito encolhida, não chamava paroquianos suficientes para sustentar o pároco. Foi por isso que o Arcebispo de Braga se viu obrigado a anexar a paróquia da Vila de Rebordãos a Sortes – uma simples paróquia de aldeia.

Temos de referir que a serra era então um espaço familiar dos fugitivos de Rebordãos e dos outros povos vizinhos, que exploravam bem a ecologia, ganadeira e pastoril, dos quatro cantos desta grande casa-mãe natural, como mostramos no ponto nº 8, mais à frente.
Sublinhamos a velocidade deste acontecimento extraordinário, mesmo para um tempo que se movia muito lentamente, como era o da Idade Média. Pestes e guerras juntaram assim, no cimo da Serra da Nogueira, populações fugitivas que rapidamente tornaram ultrapassada a primeira capelinha, impondo, menos de século e meio depois, a construção do então maior templo do actual Distrito de Bragança. Que os moradores de Rebordãos escaparam à peste, refugiando-se na serra, levantando aí dois sucessivos templos à Senhora, é o que provam também os números do primeiro recenseamento do Reino, efectuado trinta e dois anos depois do regresso do pároco, em 1495. Em 1527, contaram-se em Rebordãos 71 vizinhos – entretanto chegados da Serra --, ou seja, quase o dobro dos 37 que Sortes somou (Freire, 1919, 265), paróquia que, tendo reduzido Rebordãos a uma anexa, por falta gente, colocara esta vila e sede de concelho na sua dependência, em 1450. Relacionando o número de vizinhos de Rebordãos, com as quantidades que foram apuradas noutras vilas e aldeias do mesmo padrão demográfico, os fugitivos da serra, de século e meio antes, terão deixado para trás, na vila, cerca de vinte vizinhos, ou seja, entre sessenta e oitenta mortos.

6. Rebordãos a ferro e fogo, antes da peste?
Escrevemos acima que a peste foi empurrada pelas guerras dos sécs. XIV e XV, conflitos que fizeram subir ainda mais a mortandade. Referimo-nos às guerras dos reinados de D. Fernando e do irmão, D. João I, algumas das quais tiveram impacto directo em Bragança e concelhos vizinhos. Mas vamos só dar conta, com mais minúcia, do embate que envolveu directamente a vila de Rebordãos. Foram participantes activos o próprio rei e os seus dois meios-irmãos, contenda feudal que já vinha do reinado do pai dos três -- o rei D. Dinis. Em 29 de Maio de 1312 (Amorim, 1973,12), o Lavrador doou ao seu filho bastardo, João Afonso, a vila de Rebordãos. Mas, logo a seguir à morte do pai, D. Afonso IV mandou julgar o seu meio-irmão, sendo este apresentado como nosso natural e vassalo; no seguimento da sentença, o rei acusa-o de ser cúmplice de Afonso Sanches – o outro bastardo de D. Dinis – que era nosso inimigo, sublinhava o monarca. (Sousa,2009, 84, 85). Segundo Afonso IV, João Afonso utilizara o seu senhorio de Rebordãos para abrir a fronteira às tropas do irmão, Afonso Sanches, apoiando assim o ataque deste a Portugal (Amorim, ibidem). Ainda de acordo com a versão do rei, teria sido no seguimento deste conluio, do senhor de Rebordãos com o seu irmão, que teve lugar o ataque a Bragança, em 1325, desencadeado a partir da fronteira com Leão, roubando e pondo fogo e matando e cativando homens (Sousa, ibidem).

Preso, acusado de traição, e executado João Afonso, em 1326, às mãos próprio irmão – o rei D. Afonso IV -- a vingança feudal, do conselho de Bragança sobre a vila de Rebordãos, poderá ter sido implacável. É que o rei já tinha mostrado que não esquecia traições e, por outro lado, Bragança, que sofrera os roubos, as mortes, os incêndios e as cativações de homens, terá usado o acordo tácito, ou mesmo o explícito, do monarca para cevar a sua desforra, tanto mais que os dois conselhos de Rebordãos e Bragança, vizinhos, somavam uma vasta lista de disputas anteriores. Era chegada a altura do conselho de Bragança ajustar contas, antigas e recentes, com Rebordãos.

Depois da morte de João Afonso, em 1326, D. Afonso IV nomeou ainda dois párocos para Rebordãos, um em 1340 e outro em 1347 (Campos, ibidem, 16). Estas duas apresentações parecem não denunciar perdas visíveis na população da vila. Mas é muito verosímil que esta vingança feudal tivesse ensinado à população de Rebordãos que, só refugiando-se na serra, escapava à fúria do conselho de Bragança, preparando-a para enfrentar a peste, um adversário muito mais mortífero e persistente, que atacou a partir do Outono de 1348, como vimos no ponto anterior.

Mas os factos graves, ocorridos em 1325 em Bragança e que atrás descrevemos, terão levado o Conselho de Rebordãos a pensar o pior sobre a manutenção da sua autonomia municipal. Analisando o estado das relações entre os dois concelhos vizinhos, atentemos nos acontecimentos, ocorridos setenta anos depois, os quais nos levam a admitir que terá corrido sangue em Rebordãos, no contexto da desforra feudal, conduzida pelo Conselho de Bragança, antes da chegada da peste negra. Em 30 de Dezembro de 1395, a Vila de Rebordãos, então prisioneira da peste no alto da Serra da Nogueira, viu renovados todos os seus privilégios antigos, constantes dos forais de D. Sancho I e de D. Dinis, concedidos em 1208 e 1285. A carta régia, que confirmava a manutenção daqueles usos e costumes de Rebordãos, foi o seu conselho buscá-la a Moncorvo, onde a chancelaria de D. João I a emitiu no penúltimo dia do ano de 1395 (Silva, 1966, 199). Para obter esta concessão do primeiro rei da nova dinastia, o Conselho de Rebordãos andou cerca de 40 léguas. Ora, estando o monarca em trânsito da Torre de Moncorvo para Bragança, onde se regista a sua presença em 19 de Janeiro, do novo ano (Moreno, 1988.63-65), que razões teriam levado os homens bõos de Rebordãos a percorrer em vão mais de 38 léguas? Ou seja, se aquele documento podia ser conseguido durante a estadia do rei em Bragança, a uma légua de Rebordãos, por que é que o seu Conselho, decidindo com bom senso, concluiu que, mesmo fazendo uma viagem vinte vezes maior, era mais seguro já ter no bolso a carta régia, antes do rei entrar em Bragança, três semanas depois? Que as relações dos dois conselhos vizinhos, de Bragança e de Rebordãos, continuavam muito frias depois dos sérios acontecimentos ocorridos 70 anos antes, parece ser o juízo de gravidade mínima que podemos fazer. Mas a perspectiva da perda da autonomia municipal, passando pela sua integração no concelho de Bragança, seria a maior preocupação do conselho de Rebordãos, quando pôs os pés ao caminho da Torre de Moncorvo, enfrentando 40 léguas de jornada e utilizando os transportes dos finais de séc. XIV...

7. Uma aldeia permanente no cimo da Serra.
Em 1362, foi apresentado o último pároco por D. Pedro I na sua igreja de Rebordãos, como vimos atrás. E um novo clérigo, proposto pelo rei, só voltou a entrar na paroquial de Santa Maria em 1495, reflectindo o início do regresso dos descendentes dos fugitivos das pestes à vila. Assim, durante este tempo, de cerca de século e meio, os novos moradores, cercados no alto da serra pelas pandemias, que devastavam vilas e aldeias cá em baixo, tiveram de fundar, ali, uma aldeia de abrigo. Um povoado permanente, durante tantos anos, só pôde implantar-se à beira da portentosa nascente, na encosta soalheira, que espreitava logo o sol, quando este grande disco vermelho começava a furar as costas da Lombada. Abrigada dos ventos de N e NW, frios e cortantes, distava cerca de cem metros do cume, onde começou pouco depois a erguer-se a primitiva capelinha da Senhora da Serra.

A florestação dos anos sessenta do século passado, apagando o carvalhal rasteiro, calcinado por um potente incêndio, desencadeou um tal número de desaterros que toda a superfície foi mastigada pelos dentes e pás dos caterpillers. Os sedimentos, triturados até ao xisto, impedem hoje qualquer tentativa de investigação. Mas, antes deste revolvimento, sedimentar e arqueológico, em 1934, identificaram-se junto da fonte, (…) em escavações três moedas de cobre do tempo do Império Romano (Alves, 2000, 10). Este registo monetário romano diz-nos que, quando os moradores de Rebordãos aqui aportaram, perseguidos pela peste, o local já fora explorado, cerca de catorze séculos antes, pelos boieiros romanos. Sublinha-se que, por baixo da Fonte da Senhora, se localizam as célebres lameiras douradas, cujas gramíneas, suculentas e verdes, resistindo às estiagens longas, eram as mais úberes da serra, com bebedouros fartos, logo ali. Tal manjedoura não podia escapar à sensível pituitária olfactiva dos bovídeos e boieiros romanos.

Houve aqui outra fonte, a primitiva -- logo por baixo do tanquezinho novo -- que era um arcaz semienterrado na encosta, engastado nos próprios afloramentos de xisto, pré-câmbricos, com mais de quinhentos milhões de anos; as escadas, delidas por séculos de uso, prolongavam alguns silhares, comuns à parede, terminando no pátio de acesso à água; a cobertura, de lajes monolíticas em escama, desenhava o arco apontado; e a nascente, que pulsava das fissuras da rocha, era tão fria, em Agosto, que tinha de ser bebida devagar para não constipar as pregas mais sensíveis do estômago... Há anos que não é visto por aqui este raro elemento singular, que deu de beber à nova aldeia dos fugitivos da peste e matou a sede aos construtores das duas capelas. Que sumiço levou este tesouro?

A toponímia, da envolvente da fonte, regista o sítio das Derruídas, ou seja, ruínas, pardieiros, que indiciam construções que foram desabando. Em 1714, na marcação do termo de Rebordão, lindante com Lanção e Sortes, uma das marras estava de pé na horta de Nossa Senhora da Serra (Alves, 2000, 837). E em alguns pendores da encosta, que o novo pinhal incomodou menos, desenha-se ainda o que resta de uma paisagem hortícola, constituída por uma esparsa rede de muros, segurando solos e parcelando antigas cortinhas. A aldeia dos fugitivos da peste estava aqui. Sublinhemos este paradoxo: a peste, que lá em baixo, apagara para sempre dezenas de aldeias, fundou uma nova no cimo da Serra da Nogueira, a 1200 metros de altitude. Bouzende, Pombares e Montesinho, aldeias fartas de gados e de centeio, andam só um pouco abaixo desta cota. Não conhecemos outro lugar que tivesse saído do bojo da mortífera gadanha medieval.

A quinta geração dos fugitivos da peste, ou seja, os seus trinetos, acompanhados dos pais, começou a regressar à vila de origem – Rebordãos – com o novo pároco, apresentado pelo rei D. Manuel, em 1495, como vimos acima. Enquanto se manteve permanente a aldeia referida atrás, as novenas da Senhora da Serra iniciaram-nas, e continuaram-nas, os refugiados da peste e os seus descendentes, residentes neste novo povoado serrano. Mas a nova capela, tamanha como um mosteiro, já reflecte que os descendentes dos fugitivos de Rebordãos não estavam sozinhos, porque, se estivessem, dispensavam-se de erguer uma igreja tão ampla, nunca antes vista. Bastava-lhes a primeira, levantada de emergência, depois de 1362. O número de devotos da Senhora da Serra alargara-se. No contexto da grande pestilência e dos conflitos militares que a acompanharam, tinham acudido ali populações dos dois lados da cordilheira da Nogueira, procurando refúgio, ajoelhando aos pés da Virgem Maria, fazendo-Lhe novenas. É também verosímil que nem todos os descendentes dos fugitivos, de século e meio antes, tenham regressado logo a Rebordãos, quando a vila voltou a ter pároco efectivo. Com o estaleiro da nova capela já a mexer, a responsabilidade da sua condução deve ter recaído sobre os ombros do Conselho de Rebordãos, composto pelos bisnetos e trinetos dos que escaparam à peste negra, vindos da Vila. Por outro lado, parte da segunda geração, a terceira, a quarta e a quinta já tinham nascido na serra. Dedicadas à criação de gado, tornaram-se boieiras exímias e as pastagens eram douradas, como vimos atrás. Cá em baixo, em Rebordãos, depois de quase cento e cinquenta anos sem ninguém, prados, lameiros, hortas, cortinhas, vinhas, leiras de pão, tudo tinha sido engolido pelo monte e pelas moutas de silvas, como referem os documentos do tempo para outras paisagens rurais. Era necessário replantar vinhedos, desbravar as antigas faceiras e as pradarias, que, absorvidas pelos bosques, tinham deixado alastrar grandes extensões de terras maninhas (incultas). As frustes habitações, que neste período incorporavam pouca pedra, apesar de haver muita, estavam no chão, alastrando derruídas e pardieiros ao longo dos bairros da Vila de Rebordãos.

8. De aldeia permanente a trimestral: a transumância de homens e gados na serra.
Mas a serra atraía outras manadas e rebanhos de lugares muito afastados da Vila de Rebordãos. Assim, boieiros e pastores das aldeias dos dois lados da cordilheira, em busca de pastagens verdes e mimosas, potenciadas e mantidas por maior humidade lá em cima, subiam nos fins de Maio à serra, onde permaneciam até ao ocaso de Setembro, quando as temperaturas, baixando, anunciavam as primeiras chuvas, empurradas pelos ventos frios do Outono. De entre as gramíneas mais tenras e frescas, tosadas e lambidas por bois e ovelhas, oferecia-se, solícito, em tufos compactos, nos debruns do carvalhal rasteiro, o cervum (Nardus stricta). E, embora um dos maiores dos geógrafos nacionais afirme que a espécie apenas cresce acima dos 1500 metros (Ribeiro, 1991, 91), este mimo de eleição dos bovídeos começa a cobrir as encostas da serra a partir de cotas bem mais baixas. Por isso, boiadas e rebanhos, de Bouzende a Castrelos, pontos marcantes do início e do fim da serra, ao longo de várias léguas, disputavam os pastos de Verão, depois de, cá em baixo, a estiagem ter mirrado as pradarias. Era a transumância da Serra da Nogueira.

Como demonstrámos atrás, já durante o Império Romano, as lameiras douradas atraíam boieiros e pastores. Doze séculos depois, quando Sancho I outorgou em 1208 o foral a Rebordãos, promovendo a vila a sede de conselho, o rei não se esqueceu de prevenir que uma das primeiras tarefas, perante a notícia de qualquer perigo, era recolher e guardar o gado (Almeida, 2001, 148). Como o espaço interior do castelo era tão acanhado que mal acolhia uma pequena força guerreira, já estamos a ver que guardar o gado significava escondê-lo do inimigo. E onde é que esta operação de ocultação de boiadas e rebanhos, subtraindo-os ao saque dos invasores, podia ser feita, com toda a eficácia? Só utilizando o cerrado carvalhal da serra e os seus lugares mais recônditos, que os moradores de Rebordãos conheciam como ninguém, os gados estavam em segurança. Esta operação tinha um resultado duplo. Não só os animais não corriam qualquer risco de furto como se lambiam com as melhores gramíneas das encostas da serra, que atrás descrevemos.

Setenta e sete anos depois, em 26 de Maio de 1285, D. Dinis concede novo foral à sua Vila de Rebordãos, não se esquecendo de avisar que a Veiga de Touraons – actual várzea do Teixo -- era também sua, fazendo parte do termo de Rebordãos. É que os frades do Castro de Avelãs tinham-na extorquido no reinado de Sancho II, tio do rei (Alves, 2000, 387). E por que é que os frades filharam a veiga ao Conselho de Rebordãos e o rei, para a manter no seu termo, não se esquecera de a incluir no foral? Bem, nome diz tudo: tourones, um substantivo ainda em latim, que significa touros, bois, gado graúdo. Os propósitos dos frades do Castro de Avelãs eram claros: queriam alargar o seu património fundiário à custa do termo de Rebordãos. A veiga, que então era habitada, (idem, 300), tinha todas as condições ecológicas para servir de base a uma aldeia boieira. É que esta chã, referida no documento régio, era uma das melhores pradarias da vila, regurgitando água por todos os lados; tanta que, nesta vertente da serra, só podia servir de berço a um dos braços do Penacal; por isso, era um autêntico maná para as boiadas, que, refasteladas na erva tenra, tosavam aqui gramíneas perpetuamente verdes e frescas; a sua localização, já em plena montanha, bem como o seu nome, ligado à ganadaria boieira, só podem dizer-nos que os bovídeos continuavam donos da serra.

Avancemos cinco séculos. Em 11 de Maio de 1758, o padre de Mós, paróquia do concelho de Rebordãos, assinando a memória enviada ao governo do Marquês de Pombal, escreveu que a serra, fronteira à aldeia, era fria, mas aí se (…) sustentavam os gados no tempo de Vram (Verão). O mesmo foi referido pelo cura de Rebordaínhos, que informou haver ali (…) criação de gado miúdo e bois. O de Rossas confirmou, descrevendo a serra como espaço de criação de gados, informações atestadas também pelo de Sortes, que carregou na importância da serra como pasto transumante, grafando que aqui se apascentam muitos gados domésticos. (Capela et alii, 2007). E assim continuou o movimento de gados, graúdos e miúdos, de boieiros e pastores, durante mais dois séculos, até à florestação da serra pelo Estado Novo, que a expropriou a boiadas, rebanhos e homens.

Todo este movimento transumante, com vinte séculos -- já identificado durante a romanização – como escrevemos atrás, oriundo das aldeias aninhadas nas vertentes da cordilheira, subia à serra nos fins de Maio, só regressando a casa depois de 8 de Setembro, finda a Novena e festejada a Natividade de Nossa Senhora. Os gados, depois de fartos, sossegavam, ruminando no redil das malhadas, que baptizam tantos lugares das encostas serranas. Por sua vez, boieiros e pastores constituíam um dos grupos de maior presença em todo o calendário litúrgico da Novena da Senhora da Serra, atenta a dificuldade dos transportes, a reduzida capacidade de acolhimento dos quartéis, bem como a lonjura entre os povoados e o alto da montanha. E, como vimos atrás, os descendentes dos fugitivos da peste tinham começado a regressar a Rebordãos com a nomeação do novo pároco, em 1495, depois de quase 150 anos sem ele. E, se os construtores da primeira Capela da Senhora da Serra tinham sido os trisavós e os tetra-avós dos que iniciavam o regresso a Rebordãos, então – primeira metade do séc. XVI --, quando já estava pronto o templo grande de três naves, a transumância, de homens e animais, era uma das componentes mais fortes nos nove dias de Novena, preparando a Festa de 8 de Setembro.
9. O Santuário da Senhora da Serra no Estado Novo (séc. XX): uma aldeia semanal por ano.

Com a florestação forçada da serra e proibido o pasto transumante, uma actividade pastoril e boieira com vinte séculos, como demonstrámos atrás, inicia-se a terceira fase da história do Santuário da Senhora da Serra, quando, na ausência de homens e gados, se transformou numa aldeia semanal por ano, de 30 de Agosto a 8 de Setembro. Os devotos da Senhora e moradores na aldeia das Suas Novenas são hoje os descendentes dos fugitivos das pestes dos sécs. XIV e XV, refugiados, durante quase cento e cinquenta anos, no povoado permanente no alto da montanha, referido no ponto 7. Mas, deste longo fio temporal da veneração à Virgem da Serra -- com residência também contínua no alto da Sua montanha, durante os nove dias da novena -- comungam igualmente não só os devotos procedentes dos povos da extensa geografia da serra, que se salvaram das pandemias medievais, mas também os netos, bisnetos, e muitos bis para trás, dos boieiros e pastores transumantes, multisseculares, de Bousende a Castrelos, aldeias entre as quais corre o espinhaço da Serra da Nogueira, ao longo de três concelhos: Macedo de Cavaleiros, Bragança e Vinhais.

10. Duas viagens, há 500 anos: do Porto e de Vila Real à Senhora da Serra.
Quando, entre 1545 e 1549, o Dr. João de Barros visitou o Santuário da Senhora da Serra não ficou só admirado com as dimensões da Capela e com a multidão de devotos que presenciou. Há uma componente das suas afirmações que tem escapado ao bistouri dos investigadores. Assistindo, atónito, ao grande número e valor das ofertas à Senhora – que explicavam a monumentalidade da Capela -- alguém, ao seu lado, comentou (…) que houvera alguns dias onde se oferecera valia de 70 reis (Barros, 1919, 121). Ao citar assim o seu informador, o Dr. João de Barros quis transmitir-nos que, uns dias antes, ou seja, já durante as novenas, o valor das oferendas tinha subido ainda mais do que os lanços que observara e que ele já considerava muito altos. As novenas preparatórias do Aniversário da Senhora, a 8 de Setembro, datam da segunda metade do séc. XIV, como já vimos, quando os fugitivos de Rebordãos aportaram à serra, perseguidos pela peste e levantaram aí a primitiva capelinha da Senhora. Mas é a primeira vez que esta liturgia, prévia da Festa, consta da documentação histórica. Outro espanto, relatado, a quente, pelo doutor do Porto: (…) ali vi eu a medida de uma cobra, que um clérigo de Vila Real trazia no corpo, a qual ali lançou, que era de XIII palmos de comprido (…). Sublinhemos que, se um padre de Vila Real, a mais de vinte léguas de lonjura – quarenta com o regresso -- ousara meter-se a caminho do Santuário, utilizando os transportes de há cinco séculos atrás, então a devoção à Senhora da Serra já ecoava por toda a Província Transmontana. Do mesmo modo, a viagem, do Porto à Serra da Nogueira -- cem léguas de vinda e volta --,feita pelo Dr. João de Barros, também nos informa que a projecção do Santuário da Senhora da Serra, tendo furado o Marão, já chegara, na primeira metade do séc. XVI, ao coração do Entre Douro e Minho. Estes dois visitantes, vindo de tão longe, tornam assim muito provável que o conhecimento da Senhora da Serra seria, há quinhentos anos, quando ficou pronta a capela tamanha como um mosteiro, maior do que hoje, em todo o Norte de Portugal. Quanto à cobra, o Abade de Baçal classificou-a como uma ténia ou bicha-solitária. Concordamos com ele, propondo apenas a redução ao sistema métrico da medida palmar do Dr. João de Barros: teria mais de dois metros o bicho, antes alapado no tubo intestinal do clérigo vilarealense…

Nota 1. Queremos sublinhar que a documentação, que pôs de pé este texto, veio de três arquivos diferentes, o que agrega aos factos narrados a maior sustentabilidade. Do Arquivo Distrital de Braga, são as confirmações do Arcebispo D. Fernando da Guerra, de 1447 e 1450; do Arquivo Nacional do Torre do Tombo, de Lisboa, vieram as nomeações régias dos párocos de Rebordãos dos sécs. XIV e XV e os números do recenseamento de D. João III, de 1527. Finalmente, a Capela, tamanha como um mosteiro, é um documento físico – e o mais firme -- herdeiro da história dos fugitivos, de Rebordãos e de outras aldeias da geografia da Serra da Nogueira, à peste negra, testemunho material do qual não podemos duvidar porque ainda está hoje diante dos nossos olhos, e que, pela espacialidade e pelo tempo da sua construção, acompanha e autentica a documentação, histórica e arqueológica, utilizada.

Nota 2. A tradição fala de uma capelinha primitiva, do tempo dos godos, ou seja, mil anos antes dos acontecimentos narrados. Que houve um templo precedente da Senhora da Serra não temos dúvidas, porque serviu de arrimo aos fugitivos da peste, depois de 1362. Quando o Dr. João de Barros visitou o Santuário, entre 1545 e 1549, a primeira capelinha era a capela-mor da casa grande de três naves, que ele descreveu. Manteve-se nestas funções durante mais de um século, quando foi substituída, entre 1659 e 1671, pela capela-mor que vemos hoje, mais larga e mais alta. Agora, se os fugitivos da peste negra, chegados ao alto da serra, refugiando-se em pânico no regaço da Virgem Maria para escaparem à morte, restauraram um templo anterior ou construíram um novo, só a arqueologia poderá acender o candeeiro da história, neste lanço da investigação. Numa eventual reforma do pavimento da capela-mor, poderá, através de uma sondagem, dilucidar-se este ponto da tradição. Mas esta preexistência, se a houve, não influiu, pelo que escrevemos atrás, na origem da aldeia da Novena da Senhora da Serra.  

       Nota 3. Este texto também foi soprado pela memória da minha mãe, que cedo me iniciou na devoção à Senhora da Serra. Na última etapa da sua vida, teceu, com muito carinho e a agilidade de uma mestra de filigrana, uma toalha, que anualmente cobre o Altar da Senhora, durante a Novena ou no dia de Festa. Com a mesma devoção da minha mãe, venho também oferecer à Senhora da Serra este texto sobre a origem da aldeia das Suas Novenas. Conhecendo como Tudo começou, estou certo de que o número dos seus devotos alastrará ainda mais pela terra transmontana.

         Nota 4. Agradecemos ao Sr. Ernesto, conhecido lavrador de Rebordãos, e ao Sr. João Pedro, de Lanção, não só outro notável discípulo de Ceres mas também um distinto coiffeur da nossa cidade, a sua ajuda -- pacientíssima --, no trabalho de campo, conducente à identificação in loco de alguns topónimos (sítios) dos termos das duas aldeias, bem como outras informações, utilíssimas, na leitura das respectivas paisagens. O Paulo foi também infatigável: não só captou, profissionalmente, com a sua objectiva, alguns trechos do Santuário e da sua envolvente como repetiu connosco as viagens à serra, não nos deixando enfrentar, sozinhos, os cerrados de carvalhal, que tivemos de radiografar, de espinha bem arqueada, em muitos dos seus lanços... Um muito obrigado também.                                        
     Samil, Verão de 2018
            Ernesto Albino Vaz
            Arqueólogo
            Universidade do Porto
            Universidade do Minho
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