A origem da tragédia

1.Não, não vou escrever sobre a tragédia de Nietzsche, vou tecer considerações relativamente à última tragédia dos incêndios disseminada por vários sítios de Portugal, tão pequeno em área, tão grande em sofrimento porque amplas áreas florestais e núcleos populacionais no tocante à preservação e prevenção aos costumes dizem nada. As calamidades sucedem-se, acentuam-se quando os infortúnios climatérios persistem quebrando o conceito da sazonalidade.
O Homem gastou imenso tempo a perceber o fogo, ele aparecia e desaparecia em função dos fenómenos naturais, os nossos ancestrais primitivos quando no rescaldo de um incêndio comiam a carne de animais apanhados pelas chamas ficavam a lamber os lábios, também verificarem os efeitos do fogo no afugentar os predadores, o calor dele imanente. O Homem não sabia construir o fogo. Aprendeu a fazê-lo, a dominá-lo. O aquecimento e a iluminação das cavernas, a preparação dos alimentos, a sua acção na metalurgia permitindo fabricar armas, artefactos e utensílios foram as primeiras grandes conquistas da Humanidade derivadas da dominação do fogo. Seguramente, a maior conquista de sempre. Mas, não há bela sem senão. O Homem desleixado, trapalhão, tresloucado, vingativo também utilizou e utiliza o fogo da pior maneira, de forma irresponsável, de modo criminoso, provocando dor, sofrimento e morte.
E, mais uma vez, o Homem atingiu o semelhante através do fogo destruidor, tendo-se acentuado a tragédia porque as altas temperaturas potenciaram a sua fortaleza pantagruélica dada a incapacidade das organizações em o enfrentarem e reduzirem a nefasta lembrança.
Os trágicos incêndios ocorridos desde Junho deixaram um rosário de lágrimas e pungente desgosto de quem perdeu familiares, de quem perdeu a ânima de viver, de quem perdeu afectos e memórias, de quem ficou reduzido à roupa a cobrir-lhe o corpo. Em várias localidades da riqueza natural e ambiental, dos bens da civilização material, ficou o despojamento sombrio de tições e cinzas a desaparecerem nas enxurradas que hão-de-vir. Têm de vir trazendo novos prejuízos e inquietações. E à tragédia sucede-se o drama.
Causa estupor pensar em tal, na perspectiva da provável repetição das catástrofes porque o Estado se mostra incapaz em proteger-nos como é sua obrigação, não por pagarmos impostos, sim porque os cidadãos devem ter assegurada a sua defesa e protecção pela prosaica razão de sermos portugueses.
O nosso procedimento vai da resignação à revolta contida, impotente, estamos emparedados invisivelmente, resta-nos o voto, no entanto, o voto é arma de paixão, de excitação, do ciúme e do despeito, precisamos de nos organizar a fim de passarmos à acção defensiva-defendendo a nossa herança expressa em todos os patrimónios imateriais e materiais, na defesa da nossa identidade, no progresso espiritual e cívico. De outra forma vamos delapidando o «tesouro», ficando apenas a língua do litoral. É isso que queremos?
Parece-me despropositado comentar a situação na Catalunha. Fico surpreso com a «sabença» de alguns opinadores sobre a matéria. Não estamos em 1640. As nações quanto mais fortes melhor. Também por Barcelona paira a ameaça de tragédia