OS ABUTRES E OS FALCÕES

Voam alto e em círculos. Podem, ao longe, ser confundidos com falcões. Não são. Os falcões são animais nobres que recusam a necrofagia. Ao contrário dos abutres que quando aparecem a pairar, são indicadores de mau presságio. “Há morte por aí. Já anda um abutre às voltas lá em cima”. Atrás desse vem outro. Outros mais se lhes juntam em voo cada vez mais apertado e mais próximo do solo. Num ápice,  aos saltos, entreolhando-se, vigiando-se mutuamente, espreitam a melhor altura para cravar as garras e rasgar as carnes mortas e inanimadas com o forte bico adunco. São essas igualmente as mortíferas armas do falcão. É a presa que abissalmente os distingue e separa. E também o voo em círculo que denuncia o estado inanimada da vítima.
Francisco Sá Carneiro tinha um nariz adunco, parecido com o de um falcão. Temível como adversário, apesar de sensato e cordato era igualmente agressivo quando necessário. Era essa a marca da liderança do  PPD/PSD por ele fundado, a que aderi e ajudei a implantar no meu concelho, em 1974. Foram vários os falcões do PSD. Alguns, mercê de voos largos e arrojados, acabaram por se separar do grupo. Apesar das suas trajetórias diversas e divergentes mantiveram a matriz identitária.
Houve períodos em que me senti totalmente identificado com a liderança do meu partido de sempre e outros em que estava distante e quase em oposição, mas isso é normal acontecer em partidos democráticos como aquele em que eu me inscrevi há mais de quarenta anos.
A adesão aos partidos é voluntária e tem, em muitos casos, objetivos pessoais de carreira ou até de profissão a eles ligada ou, pelo menos, promovida e facilitada. Não é esse, contudo o verdadeiro objetivo com que foram criados e com que se apresentam aos eleitores. A sua existência e logo a adesão aos mesmos, deveria restringir-se, pois, à prossecução do bem estar comum dos cidadãos ao nível nacional, regional e concelhio. Não me cabe a mim criticar quem usa o cartão para benefício próprio ou de grupo. Seria de uma ingenuidade inadmissível tentar ignorar quer a sua existência, quer mesmo a sua importância para a manutenção e consolidação partidária. Desde que tal não me impeça nem colida com a minha militância cívica nada tenho a questionar. Quando aceitei candidatar-me debaixo de uma bandeira partidária aderi, voluntariamente, a uma série de regras e quesitos existentes e conhecidos. A possibilidade de eventuais incompatibilidades entre as regras de “lealdade” partidária e os objetivos assumidos perante o eleitorado que é, ou deveria ser, o leitmotiv partidário, só a mim compromete. Existindo, como é o caso, a consequência só pode ser uma: o abandono da agremiação onde militei nas últimas décadas. Esperei tranquilamente uma iniciativa da Comissão Política Concelhia que chegou a ser anunciada. Sem qualquer surpresa, não se concretizou. Não existindo, caber-me-ia a mim dar esse passo o que contava fazer depois de setembro, com o terminar do mandato autárquico em curso.
Não posso, infelizmente, esperar até esse momento. O recente episódio protagonizado pelo PSD a propósito das vítimas de Pedrógão Grande veio mostrar que já não é liderado por falcões. Não posso partilhar qualquer ideal partidário com quem voa em círculos sobre vítimas humanas de tragédias lamentáveis e de inaceitável aproveitamento político. É-me igualmente impossível reconhecer como minha uma liderança que apoia e promove candidatos autárquicos xenófobos.
A minha desvinculação partidária é inevitável. Nunca escondi dos meus leitores a minha filiação política por razões de clareza e transparência. É natural que essas mesmas razões me levem a partilhar aqui esta decisão. A justificação detalhada dá-la-ei, obviamente, aos dirigentes e militantes partidários.
Estou certo que continuarei a manter as relações de amizade com muitos dos amigos que tenho no PSD. Mesmo que deixemos de partilhar ideais políticos, manteremos, tenho a certeza, o objetivo comum de defesa e promoção do nordeste e dos nordestinos.