Os incidentes de Torremolinos e a Falsa Questão Geracional

 
O caso da “atribulada” e vergonhosa viagem de finalistas dos jovens estudantes portugueses a Torremolinos, na quadra pascal, parece ter o cunho redutor, aos olhos de certos saudosistas, do falacioso simplismo geracional: “hoje os jovens não têm respeito por ninguém”, e “no nosso tempo é que havia educação”.
É, pois, importante, para que possa haver um debate sério e sem radicalismos, termos presente esta noção: a parvoíce e os excessos (exceptuando os que causam danos irreversíveis a terceiros e a quem os comete) são saudáveis e próprios da juventude, seja a de hoje, seja a “do tempo da outra senhora”. Diria mais: quem não se excede nesta idade, dentro dos limites do aceitável, não vive intensamente a vida. Não fazendo as coisas na idade certa, queimando etapas, mais tarde, quando as tentamos recuperar, caímos no ridículo.
E querendo pôr as coisas em termos geracionais, havemos de reconhecer que os autores deste e de outros espectáculos lamentáveis – tenham acontecido nos anos 70/80 ou no primeiro quartel do século XXI- , sem querer generalizar, são produto do (mau) berço e, como diria Miguel Sousa Tavares sobre o tema, alteris verbis, “estes pais e estes filhos merecem-se uns aos outros”.
Ao contrário do que apregoa a “geração do respeito” (a que eu pertenço), hoje também há meninos educados e responsáveis, miúdos que têm noção de que pisar o risco significa desiludir, envergonhar e desrespeitar as suas referências morais. Há meninos que, com apenas 14/15 anos, vão em visitas de estudo, acompanhados dos professores, a Paris, a Madrid, a Barcelona, a Londres, etc., que não envergonham nem a escola que representam nem os pais, porque têm a noção de que o “risco” em proporcionar-lhes essas enriquecedoras experiências é um voto de confiança e uma forma de os responsabilizar.
São às centenas os casos em que, na sala de aula por este país fora, o professor chama a atenção ao aluno por mau comportamento; e este, a quem o berço nunca ousou dizer um “não”, chega a casa e faz queixinhas ao papá; no dia seguinte, o progenitor vai à escola e ajusta contas com o docente. Mesmo sendo a agressão verbal e física, cometida sobre o professor, passível de configurar um crime público, este fica por sua conta e risco; os agressores, fruto da desregrada democratização do ensino, ficam impunes.
E será justo identificar estes e outros casos de indisciplina escolar, que se repetem diariamente em todas as escolas, do norte a sul do país, como um problema geracional? Se houvesse a possibilidade de estabelecer termos de comparação, “no meu tempo” (infelizmente nessa altura não havia viagens de finalistas), nenhum pai, perante este género de incidentes, legitimaria o comportamento dos filhos. Os meus não o fariam; eu, enquanto pai, na remota hipótese de ser confrontado com esse cenário, ficaria muito desiludido com os meus filhos, carregando o peso da frustração de ter falhado como educador.
Há pessoal da minha geração (e da anterior) que faz passar a falsa ideia de que no seu tempo toda a gente era bem comportada. Não era bem assim! Muitas vezes o respeito era confundido com medo. E é pela razão de que nem os filhos nem os pais são todos iguais, quer na “nossa” quer na geração “deles”, um tema tão delicado quanto o civismo/ educação não pode ser entregue ao populismo fácil e gratuito, porquanto a escala comportamental está longe de se resumir aos meninos de coro e aos que têm atitudes a roçar o animalesco.