OS PARAFUSOS DE D. QUIXOTE

Em Belém do Pará, celebrandro a cultura lusitana em parceria com a Academia Paraense de Letras, Fernando Calado, romanticamente, discorria sobre a suposta passagem de Cervantes por Bragança. Ideia agradável que me aconchegava o ego nordestino. O espírito científico de João Cabrita veio deitar água no fogo duvidando da tese carreada pelo poeta de Milhão. Faltariam provas evidentes a comprová-la, sobrando indícios a contrariá-la. Reconhecendo a validade do argumentário do João, a história contada pelo Fernando é, sem dúvida, a minha preferida. A minha assumida faceta romântica exulta com possibilidade de ter calcado as mesmas pedras de rua que um dia suportaram as alpercatas do fabuloso escritor castelhano.
Por coincidência, enquanto os dois académicos confrontavam argumentos, dei de caras, na casa do Professor Alcir Meira onde fomos principescamente recebidos, com uma original estatueta do inconfundível Cavaleiro da Fraca Figura. Assemelhando-se a uma réplica em pequena escala do enorme monumento que recebe os visitantes em Benavente, tinha uma característica muito especial: era feita, exclusivamente, de artefactos da indústria metálica moderna, como bielas, rodas dentadas, eixos, roscas, porcas e parafusos numa demonstração plástica da contemporalidade do romance centenário. Dei comigo a acariciar, com o olhar, toda e cada uma das centenas de peças talentosamente escolhidas e brilhantemente reunidas e a pensar como e qual seria o Dom Quixote que Cervantes escolheria nos tempos de hoje.
 
Saltou-me de imediato a imagem de D. Justo Gallego Martinez, um castelhano de Mejorada del Campo que há mais de cinquenta anos constrói, com as próprias mãos e usando materiais reciclados, uma igreja num terreno que recebeu de herança. São muitos os pontos comuns com o soldado medieval. Como ele, D. Justo é esquálido (esteve tuberculoso), sonhador, solitário e dedica a sua existência à concretização de um sonho para glorificação da sua Dulcinéia, neste caso a Virgem del Pilar a quem a Catedral de D. Justo, como é conhecida a construção, é dedicada. Faltam-lhe outros. Entre estes e, para o que no caso me interessa, o toque da modernidade.
 
Olhei de novo e demoradamente a obra-prima do paraense, na sua casa da Avenida Nazaré, em Belém do Pará e não pude, nem quiz, evitar elaborar um arquétipo do moderno combatente. Magro sim, mas já não esquálido que é coisa cada vez mais rara. Sonhador, mas não em demasiada. A realidade fustiga-nos cada vez com mais violência e proativamente para permitir longos interregnos em mundos de pura fantasia. Não usará qualquer tipo de capacete, obviamente, mas é bem provável que tenha óculos, provavelmente de formato antiquado e, talvez, ridículo. O “Rocinante” não reclamará qualquer ração mas não dispensará a sua dose adequada de combustível, seja díesel ou gasolina. Os seus inimigos assombradores já não serão (porque também já não os há!) moinhos de vento erguidos nas colinas para esmagarem o grão nas suas pedras graníticas movidas pela força cinética captada nas suas velas de pano. Os gigantes inimigos escondem-se, hoje, nos aerogeradores instalados em enormes torres de cimento, fabricantes de energia e destruidores de paisagens.
Sancho Pança continuará, porque não, fiel e escudeiro. Mas nem em Miranda andará de burro. Seguramente acompanhará o seu chefe, mestre e mentor, montado num potente 4x4.