Os TRUMPEN…

Lá no tempo dos extremos, cabeça e pés, o mundo girou, deu a volta, os polos revoltaram-se, o eixo desposicionou-se. A moçarada pôs cabelos ao vento, a guedelha trunfou-se e descaiu ao encontro dos ombros e, lá no fundo, abafando os sapatos, os sinos instalaram-se nas bocas das calças varrendo o chão que pisávamos. Nossos pais, coitados dos nossos pais, ficaram com os cabelos em pé e seus pés perderam forças, fraquejaram face à incompreensão do arrojo. As moçoilas arejaram, pelas curtas saias os torcicolos atazanaram os endireitas e os lampiões causaram traumatismos inesquecíveis, o grito da liberdade ecoava por montes e vales.
A consciência politica, varinha mágica de caldeirão que fervilhava, infiltrou-se na área do poder, os tiranos entrincheiraram-se, as policias do regime refinaram-se, as juventudes mundiais criaram balas mentais, a mudança estava em curso.
Precisamente em 74, ano da bela madrugada, na feira do livro do meu querido Porto, lado a lado com o Histórico Garrett, cruzei-me com um livro, portador de mensagem entranhadora.
O autor dirigia-se a mim, a todos nós, aos pobres e ricos, aos novos e velhos, às infelizes almas que nos habitam. Afirmava que todos, tristes que somos, temos um dom: damo-nos bem com os inimigos e ignoramos os verdadeiros amigos, temos o condão de colocar no vértice do poder quem nos hà-de espezinhar e, certeza de investigador incansável, o ditador ascenderá da classe-baixa, a História confirmou-o e continua incansável na pregação. Falo-vos de Wilhelm Reich, incompreendido à esquerda e amaldiçoado à direita, trata-nos a todos pelo mesmo nome, o título do livro é sibilino, “Escuta, Zé Ninguém”. Psicanalista controverso, fora de tempo, observou no seu Instituto Orgone o homem despido de vestes, de adereços, viu-nos nus, sem máscaras.
Após quarenta anos deste fantástico encontro, revisito o deleite, misturo-me de novo com as angustias do pensador e, frente ao televisor, relendo os media, cruzando conversas, chego ao presente. O 25 de Abril, sabemo-lo, foi revolta de tropas, sabiamente aproveitada pela esquerda contra a direita, pelos opositores contra os instalados. No entanto, tristes memórias, lá no epicentro comunista, onde davam injeções atrás das orelhas, já nos tinham avisado, a esquerda é especialista em parir vários filhos, gémeos falsos, em que cada cabeça dita sua sentença. 
Assistimos, atónitos, desmiolados, ao avanço da revolução operária, à conquista de direitos, à melhoria dos acessos à saúde, ao bem-estar, à cultura, mas nunca à igualdade pois que existirão sempre os diferentes, os escolhidos pelo divino.
Tal como o Universo a fraternidade esteve em expansão mas, culpa dos homens, da esquerda, dos gémeos falsos, da arrogância destruidora, a fraternidade iniciou a contração.
Os pensadores, espécie única, enredados nos cordões umbilicais, entregam o poder, de novo, no colo dos populistas opressores.
E, vaticínio qual premunição, o Zé-Ninguém de todos nós, dizendo-se de esquerda vota à direita, desune-se e, pasmado, esbugalhado, tonto, elege Os TRUMPEN