PARTENON de PAPEL

Em Kassel, onde durante o regime nazi foram queimados publicamente mais de dois mil livros, a artista argentina Marta Minujín ergueu uma réplica do Parténon cujas colunas acolhem mais de cem mil livros. Todos têm, em comum, uma característica: em algum tempo e em algum lugar foram proibidos pelas autoridades com poder e que a isso se propuseram e efetivaram. 
Vem de há muito e tem vida longa esta obsessão pelo controlo das ideias livres e divergentes, desde logo na sua expressão e mais ainda na sua divulgação. O Index Librorum foi criado em 1559 no Concílio de Trento com o objetivo de travar a disseminação das teses protestantistas e só foi abolido mais de quatro séculos depois, em 1966, pelo papa Paulo VI. A destruição da célebre Biblioteca da Alexandria, segundo se conta, terá sido levada a cabo pelo general Amir a mando do califa Omar que utilizaria como justificação a sua inutilidade pois se os livros ali existentes contrariavam o Corão eram heréticos e tinham de ser destruídos de imediato, se pelo contrário concordavam e suportavam o catecismo muçulmano, então eram inúteis pois nenhum se poderia comparar, substituir ou completar o Livro Sagrado e como tal deveriam ser eliminados. Este tipo de sofisma prevaleceu durante séculos e foram ideologias com este suporte intelectual que produziu autos de fé públicos com destruição pelo fogo milhares de obras literárias. Algumas delas perderam-se para sempre. Nunca mais poderão ser, de alguma forma, recuperadas. 
Há quem situe na biblioteca do Palácio de Mafra a mais extensa e completa coleção de obras que pertenceram ao Index por indicação do Santo Ofício. Contudo o número de obras que foram impedidas de serem livremente divulgadas é enormíssima e dela fazem parte livros “polémicos” na sua época como “A Metamorfose” de Kafka e “Don Quixote de la Mancha” de Miguel Cervantes, mas também outros cujo “incómodo” é surpreendente como “O Princepezinho” de Saint-Exupery e “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carrol para além dos “óbvios” como “Manifesto do Partido Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels, e a “Ópera dos três vinténs” de Bertolt Brecht.
Os da minha geração e mais velhos conhecem, certamente, uma razoável coleção de obras portuguesas objeto de censura. Relembrarão, os brigantinos que, antes de 1974, havia livros que só poderiam ser encontrados (quando tal era possível) na Livraria Mário Péricles na secção de “culinária” ou emprestados de forma subreptícia e escondida por algum amigo que a obtivera de outro amigo de confiança e não era necessário, nem seguro, saber mais sobre o circuito percorrido pela obra.
 
A exposição pública da instalação em Kassel, que é uma réplica de uma anterior, com menor dimensão, em Buenos Aires, alerta-nos para a ameaça censória sempre presente e para a necessidade constante de a esconjurar. A simples divulgação é já um contributo para a prevenção. Mas a melhor, mais eficaz e com maior valia, é a leitura.
É preciso ler.
É com a promoção e efetivação da leitura que se concorre para a valorização da escrita, dos autores e, logo, se torna mais difícil a sua ocultação e proibição.