Partiu um dos Símbolos de Vinhais

Foi com enorme tristeza que, no passado dia 20 de Setembro, recebi a notícia da morte de uma das figuras mais representativas da alma vinhaense, o professor António Afonso. Soube-o, no dia seguinte ao último adeus, por intermédio de um amigo de longa data, o Zé Silva, filho do Zé Ourives, que fez questão de partilhar comigo um texto publicado no facebook, da autoria do também vinhaense Francisco Oliveira, o “Xilauta”, numa bonita e comovente homenagem ao seu antigo professor, à qual não podia deixar de me associar publicamente.
Nessa publicação, o Chico Oliveira referiu, de forma emotiva, todo o virtuosismo do professor Afonso: “Um homem que tinha tanto de sábio como de humilde”/ “Sábio, pelos seus valores culturais, folclóricos e históricos”/ “Conhecedor como ninguém dos costumes e tradições de Vinhais” (…) “Não fazia distinção entre pobres e ricos e sabia transmitir aos outros os valores da família, valores que ele tanto prezava”/ “Amigo do seu amigo”/ “Professor inigualável, tanto a ensinar como a partilhar os intervalos com aqueles a quem amava e ensinava”.
Conheci o professor Afonso no início dos anos 80, quando eu, orgulhosamente, representei as cores futebolísticas da capital do fumeiro, tendo como treinadores, em momentos distintos, o Valdemar Afonso e o Pereirinha, e como colegas o Zé Lopes, o Capela, o Pombo, o Tozé, o Raul, os irmãos Manuel e Rui da Ribeira, entre outros. O professor Afonso era presença constante aos domingos no então Estádio da Castanheira. Antes e depois dos jogos, o professor Afonso tinha sempre uma palavra amiga e paternal, de conforto, para nos dirigir.
A partir daí, e porque, por razões profissionais, nunca deixei de ter contacto com essa encantadora terra - do Alfredo Mandim, do Guilhermino Barreira, do Leonel Madié, do Clemente Ferreira, do Antero Henriques, do Albano Gomes, do Bi Carriço, do Moisés Alves, do António Bento, do Chico “Coto”, do Bibi, do Bilinho, do Zé Schamusco, do Amílcar Crisóstomo, do Carlotes, do Zé do Restaurador, do António Morna, do Alex, do Jacques e de tantos outros que tão genuína e dignamente a representam -, com quem me identifico visceralmente, fui solidificando a amizade com esse insigne vinhaense, porventura uma das figuras mais acarinhadas e consensuais do concelho.
Recordo o professor Afonso como aquela pessoa que condensa em si toda a grandeza do ser humano. Pois, em jeito de adenda ao texto laudatório produzido pelo Chico, cumpre-me, como alguém que também foi tocado pelos ensinamentos do professor, dar o meu testemunho sobre aquele por quem tinha uma enorme consideração – sentimento que se estende aos filhos, o João Luís e o Nuno Manuel – , e por quem os males não vinham ao mundo. 
Além de homem de vasta culta, de exímio contador de histórias, a quem se deve a recolha de um importante espólio etnográfico (não publicado, por opção sua) acerca do concelho de Vinhais, que durante anos foi anotando em folhas soltas, o professor Afonso era uma pessoa de bem, de trato fino, um cavalheiro, frugal e altruísta. Era um homem simples, tendo, ao longo da sua vida, perseguido e abraçado as causas mais nobres e meritórias, pela valorização e promoção da terra que tanto amava. Enquanto docente e pedagogo, foi respeitado pelos seus pares e pela restante comunidade educativa. Fora da profissão, foi um exemplo na forma devotada, missionária e desprendida como se entregava ao bem comum.
Como a ingratidão não é uma palavra “dicionarizada” no léxico das gentes de vinhais, estou certo que os vinhaenses irão reconhecer e valorizar o inestimável legado deixado pelo ilustre conterrâneo – de que os filhos são herdeiros e depositários.
E é essa fonte inspiradora que dá pelo nome de António de Jesus Afonso, de quem tive a honra de ser amigo, que recordo com saudade.