A opinião de ...

Riqueza da conversão

A educação em Portugal tem estado ultimamente em debate, sobretudo no que respeita ao ensino superior e à utilidade ou inconveniência das propinas para os estudantes universitários. Intimamente entrelaçados com esta discussão estão os temas do alojamento e do apoio social. De modo particular chamou-me à atenção a importância do apoio social no suporte de uma formação superior. Ora, este assunto encontrou-me a ler um texto de elevada densidade espiritual da autoria de Clemente de Alexandria (nesta cidade egípcia viveu no final do século II) e levou-me a pensar como a partilha dos bens é algo genuinamente cristão, enquanto participação livre (não constrangida) na construção do bem comum. A obra tem o seguinte título Que rico se salvará? Nela podemos comprovar a tensão que o cristianismo, enquanto encontro com Cristo, gera no crente quando este se vê nas específicas circunstâncias do tempo e do espaço em que vive. Efetivamente ninguém é batizado e crismado para constar meramente em estatísticas ou para encorpar e dar força a uma instituição ou para professar uma fé secreta ou para dar início a uma espiritualidade intimista sem conversão da realidade visível. Somos batizados para mudar o mundo a partir de nós mesmos. Um tema muito presente nesta particular obra de Clemente é a conversão: «a verdadeira conversão é deixar de ser escravizado pelas próprias coisas». Ou seja, ter sim mas em vista do bem comum. Ao mesmo tempo que defende a propriedade privada Clemente sublinha a necessidade da partilha como caminho de salvação. Já nos nossos dias, em 1967, Paulo VI escreve na Populorum Progressio que «a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário» (23).
O acesso livre e universal à educação é para todos, particularmente para os cristãos, uma legítima preocupação, sobretudo diante daqueles cuja pobreza lhes impede de prosseguir os estudos. O envolvimento de cada um passa sem dúvida pelos impostos, porém não bloqueia o caminho a outras formas de partilha. De todas as maneiras, o simples contributo dos impostos para alguém que se sabe e quer batizado não é apenas encarado como uma obrigação cívica, mas recebe pela intensidade da vida espiritual um sentido mais elevado: é uma de tantas formas da desejada e voluntária partilha que os bens permitem. Igualmente neste campo, pela criatividade dos meios e pelo sentido conferido a cada acontecimento, os cristãos são convocados a superar as leis. O fim? Que o supérfluo esteja ao serviço do bem comum, assegurando também o direito de todos à educação.

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3713