Pizzi: A Personificação da Humildade

Decorria a época futebolística de 2006/2007. O Grupo Desportivo de Bragança defrontava em casa o Sporting para a Taça de Portugal. O treinador, Lopes da Silva, tem a ousadia de, durante a segunda parte do jogo, lançar o miúdo de 17 anos que dá pelo nome (artístico) de Pizzi. Tendo em conta a irrepreensível prestação do debutante, na bancada, com um grupo de amigos, arrisquei o vaticínio: “ Este garoto, se não se estragar, vai longe”.
No desporto, mais do que em qualquer outra actividade, o talento individual, por si só, não é suficiente para garantir o sucesso a quem tem a veleidade de atingir um patamar de excelência: esse estatuto apenas está reservado a quem consegue conciliar o dom, natural ou aprimorado, com o espírito de sacrifício, o profissionalismo, a humildade e a paciência para esperar pelo momento certo.
 O Pizzi condensa em si todos esses requisitos. Do último deixou bem claro o seu carácter: Fernando Santos não o convocou para a fase final do Euro 2016. Ele – a quem se pode aplicar a máxima de Augusto Cury, segundo a qual “não há pódio sem derrotas”, respeitou, sem qualquer ressentimento, evitando a polémica, a decisão do seleccionador. Uma sensatez que lhe permitiu ser hoje um elemento imprescindível na equipa das quinas.
 Não conheço pessoalmente o Pizzi. Contudo, permito-me considerar: como pais e educadores, o Fernando e a Fatinha estão de parabéns, porque fizeram um excelente trabalho, cujo resultado se reflecte na personalidade daquele que eu entendo ser a figura pública (com sucesso) que melhor representa e mais dignifica a alma bragançana.
De patamar em patamar, o nosso ilustre conterrâneo é hoje o jogador mais talentoso e proeminente do Benfica. A fama não lhe subiu à cabeça, não o despersonalizou. Convive bem com o sucesso, é humilde, não nega as origens geográficas, não se envergonha do sotaque da sua terra (arrasta os esses e diz ), é generoso com os amigos e tem memória, não se esquecendo de invocar quem lhe fez bem.
 No final do jogo da Super Taça Cândido de Oliveira, ente Benfica e Guimarâes, realizado no pretérito mês de Julho, em Aveiro, aquando dos festejos dos benfiquistas, o nosso craque teve um gesto bonito, diria, poético, que o define como pessoa: no meio da multidão, vislumbra uma bandeira do GDB, por coincidência, agitada por um sobrinho meu, o Miguel Esteves. A estrela da equipa da Luz dirige-se ao conterrâneo, dá-lhe um abraço efusivo e oferece-lhe a camisola do jogo.
Evidentemente que, como bragançano e tio do jovem a quem saiu o “brinde”, fiquei sensibilizado com a indescritível atitude do virtuoso jogador do Benfica, que contribuiu, como não podia deixar de ser, para reforçar a grande admiração que por ele tenho, como atleta e ser humano.
P.S: Por rejubilar com o sucesso da “gente da minha terra”, não queria deixar de felicitar publicamente o meu amigo Diogo Gonçalves, o jovem de 14 anos que recentemente assinou pelo Grupo Desportivo de Chaves. À semelhança do n.º 21 do Benfica, tem os alicerces (talento e educação de berço) que o podem fazer catapultar para altos voos.