Pobres professores, miserável sociedade

Abordo hoje o tema do estatuto sócio-profissional dos professores, na ordem do dia por causa da greve destes profissionais. O conceito de estatuto sócio-profissional é muito abrangente porque abarca as condições profissionais, as condições remuneratórias, os direitos, os deveres e, em geral, a carreira.
Escrevo de uma forma simples, para que todos me entendam, sobretudo os professores, uma das profissões mais complexas do ponto de vista da linguagem profissional.
O tema deste artigo suscita-me duas advertências do jargão popular e começo por elas. A primeira é «os teus pais não te deram educação, rapaz?!». E a segunda é: «os teus professores não te dão educação na escola, rapariga?!»
O que é que mudou na sociedade para que os membros desta culpabilizem, em geral, os professores e a escola pela educação das crianças, adolescentes, jovens e adultos, estes do ensino superior? E que consequências teve esta mudança na concepção e condições de ser professor?
O que mudou é muito simples: salvo raras e honrosas excepções, os membros da sociedade demitiram-se da educação das crianças, adolescentes e jovens. Confiaram-na à Escola e aos Professores, internalizando a ideologia propagada pelo poder político alienante de esquerda de que só o Estado educa bem. Para isso construíram o «discurso normativo do super-professor» (Formosinho, 1995), exigindo a este que passasse a ser pai, mãe, orientador escolar, orientador educacional, psicólogo, assistente social, confidente-amoroso-de-ombros-largos-para-os-alunos-chorarem-as-suas-frustrações-e-desamores, auxiliar de alimentação nos refeitórios escolares, responsáveis últimos pela guarda dos alunos quando os encarregados de educação se esquecem dos filhos e educandos na escola. Não que estas tarefas não sejam importantes mas são muito para uma pessoa só.
O discurso normativo do super-professor manteve nos deveres profissionais as funções de ensino que Marcel Postic caracterizou tão bem como de motivação, enquadramento e despertar dos conteúdos académicos, habilidades motoras e aprendizagens práticas e profissionais.
À medida que os ideólogos oficiais da esquerda aumentaram as funções profissionais dos professores, diminuíram-lhes as prerrogativas e direitos remuneratórios. Hoje existem na escola os professores de primeira – os que, em 2007, estavam nos 9º e 10º escalões e que auferem, em média, respectivamente, 3.000 e 3.300 euros brutos mensais; e os professores de segunda que, praticamente, nunca mais melhoraram a sua situação profissional e cuja grande maioria aufere entre 1.200 e 1.600 euros ilíquidos mensais. O sentimento de injustiça e de desencanto é enorme e, se ainda temos escola, é porque, apesar de tudo, temos excelentes professores. Temos e temos tido é péssimos governantes. Que não conseguem encontrar soluções dignas para o impasse.
Mas há pior. Tal como os médicos e os juízes, os professores têm de mudar de serviço periodicamente, muitos deles todos os anos, com filhos e marido ou «marida» atrás e, pelos caminhos, muitos casamentos se desfazem. Ao contrário das outras duas classes profissionais, os professores não têm nem subsídios de deslocação nem subsídios de residência nem ainda subsídios à interioridade.
Se compararmos com os deputados da Nação – aqui é mesmo Nação e não República -, a situação é ainda pior. Pobres professores! Miserável Poder Político-Administrativo! Miserável Sociedade!