Política, futebol, DCE e DEE…

1 - Há uns 3 ou 4 anos atrás, no final dum derby lisboeta, Jorge Jesus, então treinador do Benfica, classificou o resultado de «limpinho…limpinho», afastando assim as suspeitas de favorecimento pela equipa de arbitragem. Essa não era, no entanto, a opinião do seu adversário. Situações destas repetem-se na maior parte dos jogos, em que os vencidos veem «mão na bola» onde os vencedores veem «bola na mão», ou vice-versa.  
Estes factos do mundo do futebol levam-me a pensar no que se passa também na política. Para uns, o governo anterior é que era bom porque conseguiu cumprir e, até, ir além dos objetivos impostos pela troika. Para outros, o governo anterior foi um simples «pau mandado» do ministro das Finanças da Alemanha, sendo incapaz de controlar o défice sem ser à custa dos que obrigou a emigrar e dos cortes nos salários da Função Pública e dos pensionistas. Para uns, o atual governo limita-se a colher os louros da política de rigor e contenção do governo anterior. Para outros, o sucesso atual da economia nacional, com a devolução dos rendimentos tirados pelo governo anterior e o controlo simultâneo do défice, é a prova provada dos erros da política do governo PSD/CDS.
E o mesmo acontece na pré-campanha das Autárquicas, em que uns veem dinamismo e competência onde outros só detetam marasmo e fogo-de-vista.
 
2 - Partindo do pressuposto de que todos são sérios e minimamente inteligentes para saberem distinguir a verdade da mentira e o bem do mal, como se explicam perceções tão diferentes da mesma realidade? Depois de vários anos de pesquisa e de reflexão sobre esta matéria, cheguei aos conceitos de distorção cognitiva egocêntrica (DCE) e de distorção ética egocêntrica (DEE), que passo a explicar.
Tanto no futebol como na política, os vencedores ganham dinheiro, prestígio e poder, e satisfazem a sua vaidade, enquanto que os vencidos perdem isso tudo. Os fanáticos dos clubes e dos partidos, nada ganhando com a vitória do seu clube ou partido, alimentam, com ela, o seu fanatismo. Desta forma, embora a realidade seja apenas uma, as formas de a ver variam consoante os interesses, os afetos e os fanatismos de cada um. Por isso, o Direito Romano já preconizava: ninguém é juiz em causa própria. É a esta forma de ver a realidade sob a influência dos interesses e dos afetos egocêntricos que eu designo por distorção cognitiva egocêntrica (DCE).
Esta distorção, no entanto, sendo cognitiva, muitas vezes é também ética. Lembro as palavras insuspeitas de Lobo Xavier que, há dias, classificou de «uma alarvidade de bradar aos céus" criticar o ministro Centeno por causa das cativações. Na minha opinião, para lá duma «alarvidade» política é duma grande incoerência ética, porque todos os governos anteriores, incluindo os do PSD/CDS, fizeram cativações. Lembro ainda a questão dos «jobs for the boys», que todos criticam quando se encontram na oposição, mas todos, sem exceção, praticam quando chegam ao governo. Ou seja, para o egocêntrico, o que é eticamente bom quando satisfaz os seus interesses e afetos passa a ser eticamente mau quando os desfavorece.
Por isso, às vezes, a distorção cognitiva egocêntrica (DCE) passa a ser também distorção ética egocêntrica (DEE), sendo, ambas, duas faces da mesma moeda.
 
3 – Todo o ser humano tem a sua dose de egocentrismo e, portanto, de DCE. No entanto, como dizem os especialistas, nalgumas pessoas, o egocentrismo narcisista assume foros de patologia. Nesses casos, confunde-se discordância com afrontamento e parte-se para o insulto e para a violência verbal ou física contra o discordante. Infelizmente, é o que tem vindo a acontecer, algumas vezes, nesta pré-campanha para as Autárquicas, como acontece sempre que o egocentrismo passa de normal a patológico.