A PROEMINÊNCIA ATLÂNTICA

Não apenas a intervenção definitiva na II Guerra Mundial, mas a condução firme e recompensada na Guerra Fria, permitiu a Henry Kissinger (Dear Henry), no início deste Milénio (2001), escrever, no seu Does America Need A Foreign Policy?, o seguinte: “Na aurora no novo milénio, os Estados Unidos gozam de uma proeminência que nunca foi igualada, mesmo pelos maiores impérios do passado. Do armamento ao espírito de empresa, da ciência à tecnologia, da educação superior à cultura popular, a América exerce um ascendente sem paralelo sobre o planeta”. Por esse tempo, com a União Europeia dispondo de estadistas, e de projeto, a visão era a de que a proeminência do Atlântico continuava a inspirar a organização dos mapas do mundo, tendo o Atlântico por centro, e a Europa a repensar reassumir o estatuto de “Luz do Mundo”. A realidade não parece ter obedecido ao prognóstico da longa duração desse proclamado estatuto. Pelo contrário, sem pessimismo, e em vista dos poderes emergentes, designadamente no sul do globo antes chamado, no geral, “terceiro mundo”, foi observado por um francês, Jean-Christophe Graz (2008), que “a guerra fria foi uma das raras estruturas históricas a desaparecer sem que seja definida sobre as suas cinzas uma nova ordem mundial”. É evidente que os EUA continuam a ser um grande poder mundial, juntando ao poder militar, a dimensão da ciência, da técnica, e da economia, mas o realismo de Obama fez-lhe compreender que tanto a “potência” e “o desafio do fraco ou forte”, eram imunes à recessão mundial, que a tipologia da chamadas guerras multiplicaram as categorias, e por isso procurou usar o que foi chamado leading from behind, procurou modificar as relações com o Japão e não descuida que a China “mostrou a bandeira”, reconheceu o policentrismo que parece definir-se no globalismo mal sabido. Isto não podia deixar de refletir-se na circunstância europeia, que finalmente deu sinais públicos de inquietação sobre a mudança do centralismo atlântico, podendo ter-se por suficientemente clara a intervenção do Presidente Hollande, da qual consta que “não poderá existir continente ou União sem defesa”, e que as principais preocupações dos europeus são “a proteção de fronteiras, de interesses e de valores”. Nesta conferência de dia 27, realizada em Bratislava, o Ministro dos Estrangeiros Miroslav Laicax, tinha antecipadamente manifestado, com divulgação suficiente, que a reunião era “para discutir o que fazer com o projeto europeu”. As notícias dão conta de que a crise foi assumida, não escondem que François Hollande e Angela Merkel, ou talvez mais exatamente a França e a Alemanha, declaram-se capazes da liderança: o primeiro anotando que o Reino Unido decidiu sair, levando a pensar na alternativa da “desintegração” ou do “relançamento” do projeto, e a segunda apelou para trabalho efetivo em vez de grandes e eloquentes declarações. Não parece que a necessidade de segurança, tão posta em evidência, tenha incluído ao lado das migrações, da evidência assumida de que a fronteira externa de um Estado membro é “a fronteira externa de todos os Estados membros”, a declaração da responsável pela Segurança e Relações Externas, Vice-Presidente da Comissão feita não há muitos dias, de que a tal Segurança não diz apenas respeito a serviços do Frontex, da articulação dos serviços de informação, em suma, do instrumental existente, mas à necessidade europeia de um exército. O objetivo da tranquilização dos europeus seria beneficiada por algum conceito da conferência, designadamente porque a saída do Reino unido significará a saída do maior exército europeu da estrutura de segurança e defesa autónomas do Tratado. E sobretudo tem relação com a questão da centralidade do Atlântico, e de um consequencialismo que não pode deixar de afetar os planos existentes. Esta decisão britânica, seja qual for a definição que venha a ser acordada para as relações futuras com a União, parece mostrar que ela tem uma visão do policentrismo mundial em gestação, que a União Europeia não dá mostras de ser uma das autoridades desse processo, que as autoridades vinculadas ao globalismo como a ONU necessitam de sair, pela reforma, do pousio, e, numa data em que mais de um Estado mostra o regresso à memória do passado, para redefinir o futuro, é a solidariedade da Comunidade Britânica que mais lhe interessa. A definição atlântica pressentida pela União Europeia foi outra, a da segurança autónoma, depois do fim da guerra fria, enquanto os EUA de Obama procuraram responder ao crescimento do policentrismo, e nessa evolução, segundo a recomendação de Thatcher, é necessário ao Reino Unido não esquecer servir a supremacia anglo-saxónica. O que exige ter esperança de que a eleição em curso para a Presidência dos EUA não inclua um desastre no problema.