A propósito da neve… …. Em Bragança.

A forma silenciosa como tantas vezes no surpreende, engalanada no seu bailado celestial, ao desprender-se do céu e deleitar-se na terra, com a sua singular beleza, não há dúvida que a neve invade, harmoniosamente, o imaginário criativo da maior parte das pessoas, sobretudo na meninice, adolescência e juventude. Porque nasci num “Reino Maravilhoso”, que a neve acariciava, embora, atualmente com menos regularidade, gosto de ver nevar e do espectáculo natural que a mesma proporciona.
Guardo da neve inesquecíveis recordações. Com a neve convivi, num tempo, onde o tempo não contava, mas dela, muitas apelativas e românticas, brincadeiras, se contavam e recontavam. Eram momentos felizes, de alegria genuína, usufruindo do verdadeiro sentir do viver e conviver.
Normalmente, era de manhã cedo, logo que acordávamos, olhávamos pelos vidros das janelas e tínhamos a grata surpresa de ver um manto branco e imaculado cobrindo tudo o que víamos. Era a alegria generalizada com os gritos e os pulos de contentamento. Uma Festa!... Ficávamos eufóricos com as expectativas das brincadeiras tão "sui géneris" que só a neve nos permitia. As crianças, como eu, ficavam em alvoroço que só acalmava quando saíamos para brincar, sem medo do frio e rostos vermelhos, queimados pelo gelo mas vibrantes de excitação.  
A neve era, e ainda é, bem vinda porque, para os produtos agrícolas, é melhor do que a chuva: a humidade da atmosfera cristaliza em minúsculos e leves flocos, que, vistos ao microscópio, têm uma forma hexagonal, apresentando rendilhados ímpares e variados. São um Milagre da Mãe Natureza!... Voam docemente e poisam para serem, lentamente, absorvidos pelo solo arável que aproveita, na íntegra, os seus nutrientes, potenciando a excelente qualidade dos nossos produtos hortícolas. Atrever-me-ia, até, a dizer que, no nosso País, é Trás-os-Montes que detém a melhor qualidade destes produtos da terra, que os diferencia dos restantes. Por essa e muitas outras razões, a neve no nosso nordeste faz falta. Os inevitáveis constrangimentos são, certamente, colmatados pelos inúmeros benefícios no que à renovação da natureza diz respeito, favorecendo a normalidade dos ritmos biológicos e renovação dos aquíferos.
A neve estimula a imaginação, o convívio,   a alegria de viver e até ao despertar dos afectos numa sociedade, cada vez mais, menos comunicativa. Isto sem esquecer os argumentos gastronómicos, sustentados nas ementas rurais que, em dias de neve, a dona de casa confecionava e, no aconchego da lareira, a família alegremente degustava.
Por tudo isto e muito mais, parece-me que nevar em Bragança, numa época de seca, após um verão quente que nos apoquentou com inúmeros incêndios e generalizada falta de água, acaba por ser uma “bênção” de Deus, que nos alegra e conforta, e não uma tragédia que nos constrange e desconforta. A positividade que potencia supera a inerente contrariedade que condiciona o dia a dia. E, se compararmos os tempos atuais com os de antigamente, dos meus tempos de estudante, por exemplo, em que o frio gelado apertava e neve por muitos dias ficava, depressa concluímos que, hoje em dia, este fenómeno meteorológico não vai além de uma leve brincadeira que dura pouco e não provoca canseira.
Assim sendo, ao falar da neve, ou noticiar que em Bragança esta se fez sentir, não devem ser omitidos os aspetos positivos, mas potenciar a motivação das pessoas que aqui possam vir. Ou a neve só é boa para ir passar férias, noutras zonas ou noutros países?!...