Que Professor habita em nós?

Nos passados dias 5 e 6 de Maio, decorreu na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança o II Encontro Internacional de Formação de Professores. Pretendeu-se discutir princípios actuais de formação e analisar as práticas de formação à luz desses princípios.
Para enquadrar os princípios actuais de formação foram convidados os professores António Nóvoa, da Universidade de Lisboa, e Miguel Santos Guerra, da Universidade de Málaga.
António Nóvoa analisou os modelos de formação numa perspectiva diacrónica (ao longo do tempo), nos últimos 200 anos, concluindo por recomendar o modelo de formação médica na Faculdade de Medicina de Lisboa (Hospital de Santa Maria). Descreveu as características deste modelo como: proximidade às situações práticas de trabalho; supervisão constante do orientador; possibilidade de discutir as práticas médicas em aulas teórico-práticas no mesmo edifício; professores médicos simultaneamente professores e médicos em exercício da prática médica. Em síntese, estudar medicina praticando medicina e discutindo as práticas médicas, sempre no local da prática profissional.
A importação deste modelo para a formação de professores implicaria que os professores da formação de professores fizessem formação e, ao mesmo tempo, fossem professores de crianças/alunos, os mesmos com quem os futuros professores treinassem, ou outros, mas sempre no interior da escola de educação/ensino dos alunos de educação básica e/ou secundária.
O único modelo parecido implementado em Portugal e em Espanha, nos finais do Século XIX e princípios do Século XX, foi o das escolas anexas. No mais, a formação tem sido muito desligada da prática, mesmo no actual modelo, que pretende integrar as duas componentes procurando colocar os futuros professores numa situação de alternância entre observação/cooperação/intervenção na escola básica ou secundária e análise posterior dos actos pedagógicos e científicos na escola de formação, fora do contexto profissional. Acresce a este modelo que, por via da especialização científico-pedagógica dos formadores, estes não só não têm formação no nível de ensino para que estão a formar professores como nunca exerceram nele a função de docência. Opera-se assim um corte entre a formação teórica e a formação prática, prevalecendo esta, nas suas virtudes e defeitos como processo de indução e socialização profissional dos futuros professores.
Tem-se minimizado os defeitos da separação entre teóricos e práticos com a celebração de contratos de cooperação e de formação com os docentes supervisores da prática profissional mas a dicotomia persiste e pode ter efeitos maléficos. Ficou lançado o repto para a construção de um modelo mais integrador de teóricos e práticos na formação de professores.
Miguel Santos Guerra, um especialista na avaliação das escolas e dos professores colocou-se na perspectiva das competências profissionais dos professores. Fez-me regressar a escritos de Marcel Postic e de Paul Dupont, em meados dos anos 80 do Século XX. O primeiro, valorizando no professor a função de orientação educacional; o segundo valorizando a função de gerador de expectativas positivas e de bom autoconceito pelos alunos. Curiosamente, dois estudos portuguese baseados nos trabalhos daqueles dois autores («Imagem dos Alunos», de Luís Leandro Dinis, e «Os Aprendizes de Pigmalião». de Maria Helena Brederode Santos, vão no mesmo sentido: o bom professor é aquele que sabe e explica bem mas é, sobretudo, o que gera autoconfiança e expectativas positivas nos alunos.