Quinta Epistola de Bragança aos Políticos

E o povo, as vezes, chateia-se e do seu infortúnio saem mulheres e homens a dizerem verdades claras como a água e duras como fragas como, por exemplo, António Aleixo.
 
Há muitos burros mandando 
em gente de inteligência
e as vezes fico a pensar
se a burrice não é ciência.
Porque o mundo me empurrou
caí na lama, e então
tomei-lhe a cor, mas não sou
a lama que muitos são.
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra.
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu’rer um mundo novo a sério.
Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.
A vida na grande terra
corrompe a humanidade.
Entre a cidade e a serra
prefiro a serra à cidade.
Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.
Uma mosca sem valor
poisa, c’o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
Num arranco de loucura,
filha desta confusão,
vai todo o mundo à procura 
daquilo que tem à mão.
Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que pareço.
Eu já não sei o que faça
p’ra juntar algum dinheiro;
se se vendesse a desgraça
já hoje eu era banqueiro.
Bate a fome à porta deles
e é lá mais mal recebida
do que na casa daqueles
que a sofreram toda a vida.
Para não fazeres ofensas
e teres dias felizes,
não digas tudo o que pensas,
mas pensa tudo o que dizes.
Entre leigos e letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.
Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não ser.
Fui poeta, fui soldado
estive fora da nação
vendo jogo, guardei gado,
só me falta ser ladrão.
Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
P’ra aqueles deficiências 
que os meus versos possam ter.
Julgam-me mui sabedor
e é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!
Quando não tenhas à mão
outro livro mais distinto,
lê estes versos que são
filhos das mágoas que sinto.
Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.
 
 
Esta é a minha homenagem ao povo que nos deu Aleixo e ao Aleixo do nosso povo.