Reforma (III)

Procurar uma reforma integral, in capite et in membris, é o objectivo de muitos esforços ao longo do tempo da Igreja. Entre os séculos XIV e XVI, muitos membros da hierarquia desejavam a reforma, mas nem sempre tinham a força suficiente para lhe dar cumprimento. Tal como quando se trata da nossa conversão pessoal: nem sempre se levam por diante com lucidez e firmeza as mudanças necessárias. Assim se compreende que vários Concílios apelem à reforma, mas faltem o discernimento e a coragem para a empreender. No fundo, as autênticas mudanças não se processam por decreto. É perante a necessidade e a firme vontade de progredir recuperando a pureza original, que no século XIV alguns passos foram sendo dados, e foram sendo dados a partir das bases. Nem sempre se encontram nas cúpulas a iniciativa, a coragem e o entusiasmo que se encontram nas bases. Daí terem sobrevindo muitos movimentos no seio da Igreja. Movimentos que, sem fugir da comunhão, a purificaram. No passado artigo, fez-se referência a um movimento destes que surgiu no século XIV, apelidado Devotio Moderna. Este movimento é muito importante não só pela reforma que directamente protagonizou, mas igualmente por aquela que inspirou. Para compreender os acontecimentos de há 500 anos, importa não esquecer a Devotio Moderna.
Não falta quem veja no seu fundador, o diácono Gerhard Groote, o percursor do protestantismo. É no entanto uma analogia não muito precisa, uma vez que Groote nunca impulsionou a sua obra reformadora acenando a qualquer cisão, mesmo quando perdeu o apoio da hierarquia. A postura de Groote é a de dar resposta à urgência de uma mudança na Igreja, mas a partir de dentro. Assim, pela pregação, não deixa de criticar os abusos do povo e do clero, particularmente o abuso na tibieza, e, dá a chave da reforma: a verdadeira vida espiritual é a imitação de Cristo. Ainda hoje muitos conhecem a obra Imitação de Cristo, um escrito admirado dentro e fora das fronteiras da fé, cujo autor permanece desconhecido, mas cujo contexto é este da Devotio Moderna, uma vez que segue a sua doutrina.
Groote com outros amigos e discípulos faz a experiência de uma vida comum de oração, estudo e ensino. Surgem, assim, os Irmãos e as Irmãs da Vida Comum, que se espalham sobretudo pelos Países Baixos e pela Alemanha. Pequenos núcleos reformados e reformadores, sem pressas nem adiamentos. Dedicam-se às missões populares, à educação da juventude e dos clérigos, à publicação de escritos divulgativos e ao desenvolvimento de um profundo humanismo nas suas escolas. Sem hábito especial, sem votos e sem clausura, oferecem-se ao recolhimento, à meditação, à leitura da Sagrada Escritura, à ascese, a práticas virtuosas e ao apostolado laical. Não separam vida activa da vida contemplativa e vivem uma nova forma de espiritualidade, de teor afectivo, pessoal, íntimo. Nas suas escolas estudará Lutero.