Reforma IV

No séc. XVI a vida cultural da Alemanha é marcada pela difusão de dois movimentos: a Devotio Moderna, à qual se aludiu nos artigos anteriores, e o humanismo. Não são realidades dicotómicas, antes vêem a sua história entrelaçada até, pelo menos, ao aparecimento de humanistas hostis para com a Igreja e para com o próprio Cristianismo, o que acontece no princípio do mesmo século XVI. Por outro lado, ainda no âmbito cultural e espiritual, a forma de viver do povo alemão conservava e fazia florescer uma profunda piedade, alimentada e manifestada nas peregrinações, no desejo de ganhar indulgências, no antigo culto das relíquias e na leitura de livros devocionais.
É neste contexto cultural e religioso que Lutero cresce. Como foi referido no último artigo, recebe formação entre os Irmãos da Vida Comum. Bebe por isso uma espiritualidade marcada pela intimidade pessoal com Deus e pela leitura da Sagrada Escritura, o que será decisivo na construção da sua percepção teológica, sobretudo no que respeita à sua visão sobre a Igreja. Findos os estudos iniciais, o seu pai gostava que estudasse direito, no entanto Lutero entra no Convento dos Frades Agostinhos de Erfurt. Esta decisão e esta entrada estão relacionadas com uma promessa que fez durante uma forte tempestade. Foi ordenado sacerdote em 1507 e começou a ensinar filosofia na universidade de Wittemberg e teologia na universidade de Erfurt. Importa sublinhar que se a Itália era o grande centro cultural de então, a Alemanha superava-a no que se refere à reflexão filosófica e teológica. Lutero encontra-se, assim, a ensinar entre os mais conceituados teólogos. Certamente, porque muito considerado no âmbito da sua Ordem, é enviado a Roma em 1510 para dirimir alguns conflitos. Ao certo, não se conhece o quanto esta viagem o impressionou, pois tudo o que aparece dito e sobremaneira explorado acerca desta viagem, não se baseia em escritos anteriores ao dissídio com Roma, que acontece a partir de 1519. Não se trata de um pormenor insignificante, mas de um indicador importante para avaliar até que ponto foi a decadência da Igreja a ter o principal peso na origem do cisma. Depois desta viagem, de novo em Wittemberg, continua a dedicar-se ao estudo da teologia, à pregação e à publicação de alguns escritos. Escreve o Comentário aos Salmos (1513-1515) e destaca-se através do Comentário à Carta aos Romanos (1515-1516). Uma expressão paulina era-lhe muito cara: «o justo viverá pela fé» (Rom 1, 17). De tal forma é significativa que, na conhecida experiência da torre, a entende como a descoberta da misericórdia. Aqui assenta o seu pensamento do qual sobressaem dois aspectos fundamentais: a doutrina da concupiscência, que veicula uma antropologia negativa segundo a qual o homem nem pelo baptismo deixa de estar corrompido; e a doutrina da justificação, segundo a qual o homem é salvo pela graça de Cristo quando acolhida pela fé. Lutero chega aqui não apenas a partir do estudo de S. Paulo e de Sto Agostinho, mas também a partir de uma profunda ansiedade e perturbação interior.
Desde já convém sublinhar uma intuição que vai marcar profundamente o pensamento eclesiológico de Lutero, a sua visão sobre a Igreja: a dialéctica interior/exterior. Ao lado da influência da Devotio Moderna que se faz sentir sublimando a interioridade e valorizando muito a Sagrada Escritura, Lutero perde o sentido dos Sacramentos e o valor das obras em ordem à salvação.