Reforma IX

No Concílio Vaticano II foi oferecida aos padres conciliares uma obra do Beato Frei Bartolomeu dos Mártires: o Estímulo dos Pastores. Nesta obra podemos deparar-nos com aquele cuidado que preside a todo o Concílio de Trento, ou seja, a salvação das almas (cura animarum). Esta preocupação, que há de estar sempre no coração dos pastores, iluminou todas as discussões e decisões conciliares tanto no âmbito do esclarecimento do dogma, reivindicado pelas doutrinas heterodoxas surgidas, quanto no âmbito da reforma disciplinar, exigida pela necessidade de conversão ao essencial. O Concílio de Trento veio sublinhar, como escreve o Pe. Giacomo Martina, que «a missão essencial da Igreja é a salvação das almas, não o incremento das artes e dos valores humanos, nem muito menos a solução económica para alguns privilegiados». O Renascimento para a Igreja era, decididamente, outro.
Ora, muito mais do que qualquer vicissitude momentânea, foi e continua a ser a cura animarum a reclamar uma constante reforma na Igreja. A hora de Trento foi, assim, uma hora pastoral seja no esclarecimento de alguns pontos dogmáticos para corresponder à vontade do papa, seja na determinação de algumas medidas disciplinares de reforma para atender ao desejo do imperador Carlos V. Se a nível dogmático a Igreja teve de elucidar a doutrina sobre a Tradição, a Escritura, a Justificação e os Sacramentos; a nível disciplinar, o Concílio regulou sobre a pregação, a obrigação da residência, a proibição em acumular benefícios, a autoridade episcopal, os costumes do clero, a fundação dos seminários, a seleção dos candidatos ao sacerdócio, a celebração dos sínodos, as reformas dos capítulos e as visitas pastorais. Tudo isto se foi debatendo e decidindo ao longo de vários anos, entre 1545 e 1563, sobretudo na cidade de Trento ainda que com uma breve deslocação para a cidade de Bolonha (de 3.11.1547 a 17.9.1549). O Concílio falhou, contudo, no objetivo de reconstruir a unidade entre protestantes e católicos.
Coincidente com o início do Concílio de Trento, em 1545, está a fundação da nossa Diocese de Miranda. Esta coincidência externa não pretende ser mais do que coincidência. No entanto, há uma preocupação que surge sublinhada na Bula da criação da Diocese que nos atira para o espírito que motivou e determinou o Concílio. Essa preocupação é precisamente a cura animarum. Uma das razões apontadas por Paulo III na Bula Pro Excellenti Apostolicae, a partir da petição de D. João III, para a fundação de uma nova Diocese é que «sendo a Diocese de Braga muito extensa, larga e dispersa, com grande abundância de população e de clero, possuindo também muitos mosteiros e igrejas […] e não podendo por isso o arcebispo de Braga visitar, como é obrigado, toda essa diocese, nem exercer os restantes ofícios pontificais mais trabalhosos, nem conhecer, como conviria, pessoalmente os seus diocesanos», isto resulta em «confusão na administração das cousas eclesiásticas, descontentamento e perigo para as almas». Nesta breve citação apercebemo-nos que é a preocupação pela salvação das almas que vem destacada entre as motivações para a fundação da Diocese, cuja visita pelo seu pastor é imperiosa, como viria a determinar com nova força a última fase do Concílio de Trento.