Reforma V

«Abençoadas sejam as manhãs!» reparou simplesmente Bernanos. Na história da Igreja os períodos matinais abundam. Diga-se que os tempos das reformas transportam esta carga de significado. Mas não só. Desde o século XIX que o papado goza de uma estima e devoção prevalecente que podemos identificar com uma prolongada manhã. O advento do Papa Francisco dá prosseguimento a este movimento e sublinha-o sobremaneira, como a recente presença em Portugal expressa.
Olhando para trás, não foi sempre assim. Há, no longínquo séc. XIV, um acontecimento que assinala um reverso também ele duradoiro: o golpe sofrido pelo papa Bonifácio VIII na cidade de Anagni em 1303. A autoridade moral do papado é atingida de tal forma que para alguns este acontecimento marca uma viragem histórica, assinalando simbolicamente o início da Idade Moderna. Desde Anagni à permanência do papa em Avinhão (com o que isso significou de cumplicidade com a coroa francesa) ao cisma do ocidente (a cristandade dividida em obediência a dois papas), o prestígio do papado entra em séria decadência. O período do renascimento consegue, pela via artística e cultural, erguer um pouco este prestígio, mas redundará em mais uma forte causa para um definitivo descrédito. Ao lado do mecenato artístico encontram-se na corte pontifícia os hábitos palacianos das outras cortes europeias. A necessidade de meios para fazer face às obras empreendidas e aos gastos da corte papal levou a alguns abusos doutrinais, como aconteceu quanto à pregação das indulgências. Pode-se por isso, apressadamente, evocar a decadência do prestígio do papado e da cúria romana como a causa principal ou exclusiva da reforma protestante. Foi, sem dúvida, a tese que tradicionalmente se apontou. No entanto, desde os inícios do séc. XX, católicos e protestantes são unânimes em questionar esta causa como exclusiva e até como causa real. O próprio Lutero esclarece: «não refuto a imoralidade e os abusos, mas a substância e a doutrina do papado». A sua postura doutrinal, que em diversos pontos se vem revelando heterodoxa, começa a afirmar-se a partir da polémica sobre as indulgências, desencadeada pela desajustada pregação do dominicano João Tetzel.
Contrapondo-se a Tetzel, Lutero escreve as 95 teses e propõe a defesa das mesmas para o dia 31 de outubro de 1517. Tetzel responde com 106 teses contrárias e surge assim uma tensa polémica da qual, nos inícios, Lutero procura sair sem ser condenado. Escreve, por isso, ao papa Leão X uma carta afirmando que reconhecia o primado papal, mas contemporaneamente em outros actos nega esse mesmo primado. Procurado em 1518 por um delegado pontifício, recusa refutar as suas posturas heterodoxas seja quanto aos sacramentos, seja quanto à doutrina das indulgências, e foge com a ajuda do príncipe Frederico da Saxónia. Em março de 1519 escreve uma segunda carta ao papa professando novamente o primado, o que noutra carta escrita a um amigo contradiz. Todo este jogo levou à bula de condenação Exurge Domine, de 15 de julho de 1519, diante da qual, recusando a possibilidade de reconciliação, Lutero reage escrevendo três obras onde reafirma a sua postura doutrinal e a 10 de dezembro de 1520 queima não só a bula e mas também um conjunto de leis eclesiásticas enquanto símbolo do poder temporal do papa. Esta posição deixa de ser simplesmente doutrinal para passar a assumir contornos políticos. Em Lutero afirma-se, assim, o desejo de independência face a Roma. A nível político, o individualismo da Idade Moderna exprime-se pela aversão quer ao papa quer ao imperador. A tendência antipapal, nutrida por tantas razões, encontrou nas doutrinas de Lutero uma oportuna fundamentação e uma forte arma política da independência dos príncipes face a Roma. Alguns chegam a dizer que Lutero foi politicamente instrumentalizado. No entanto, é difícil divisar a fronteira entre instrumentalização e protecção, uma vez que ele encontra no poder civil uma importante defesa das ideias a que não renunciará.