Reforma VII

Para a passada sexta-feira a Conferência Episcopal Venezuelana propôs uma jornada de oração e jejum pela liberdade, pela justiça e pela paz. Convocaram-na os bispos numa mensagem urgente que dirigiram a todos os católicos e pessoas de boa vontade. Nela denunciam, com coragem profética, os males que assolam o país: «fazemos nossos os clamores do povo que se sente golpeado pela fome, pela falta de garantias para a saúde, pelo difícil acesso aos medicamentos e pela insegurança a todos os níveis», deixando bem claro que «existe um menosprezo da dignidade humana que se expressa na violação e negação contínua dos direitos humanos por parte das autoridades». Efetivamente, o número de mortos em manifestações desde abril atinge já a centena e no ano transato foram 11.000 as crianças que faleceram carentes de medicação. A pobreza galgou e chegou aos 82% da população. Um verdadeiro cenário de destruição humana. Ao lado do clamor dos bispos pode encontrar-se o ardor da Cáritas, que tem distribuído bens alimentares, de higiene e de saúde. Claro está que neste clima de insegurança e incerteza são milhares os que decidem abandonar a Venezuela, como se está a refletir na nossa ilha da Madeira.
Todo este ambiente de crise política e social bem como o fenómeno migratório podem, à partida, não apresentar qualquer consonância com o tema da Reforma que temos vindo a desenvolver. No entanto, essa consonância existe. Claro está que as causas são diversas. São 500 anos de distância. A proximidade consiste no facto de o tempo da Reforma ter sido marcado por profundas convulsões sociais, por fortes tensões políticas e por forçados fluxos migratórios. Quando Lutero se encontrava refugiado no castelo de Wartburg (1521-1522), a que ele chamava Patmos, onde fez a tradução alemã da Bíblia, foi obrigado a sair disfarçado de cavaleiro para se inteirar duns motins que envolveram em Wittemberg estudantes universitários e procurar apaziguar. O veloz proliferar dos seus opúsculos e a rápida propagação das suas doutrinas levaram a que interpretações apressadas comprometessem a paz social. Saques, destruição de imagens, proibição da celebração da Eucaristia, estímulo a que os religiosos abandonassem o convento e a vida célibe. Tudo isto foram fazendo os estudantes de Wittemberg apoiados por grupos populares devidamente encabeçados. Interessado pela paz e já de novo no castelo de Wartburg, Lutero escreveu uma exortação para que se evitasse a sedição. Não teve, porém, os mesmos ecos a que os seus escritos estavam acostumados e a situação piorou com o aparecimento da seita dos anabatistas, um grupo fanático e anárquico. Piorou e foi ver, a este nível, o mal a multiplicar-se até chegar à Guerra dos Camponeses em 1524-1525. Contra eles escreveu, depois dum primeiro momento de apoio, Lutero.
A estes tumultos sociais somaram-se as tensões políticas. Emergiram divergências entre os príncipes, o imperador e o papa. Desde a Confessio Augustana que se desencontraram não só o papa e os príncipes protestantes, uma vez que estes chamaram a si para além do poder temporal o poder espiritual, mas igualmente os príncipes e o imperador que procurava combater o movimento protestante. Foi em 1555 que com a Paz de Augsburgo se assinalou o reconhecimento oficial e a liberdade do protestantismo. Uma lei, todavia, se impunha a todos: cuius regio, eius religio. Ou seja, os súbditos deviam seguir a religião do governante. Será esta norma retomada no final da guerra dos Trinta Anos com a Paz de Westfália (1648), sendo ela a responsável pelos grandes fluxos migratórios à data registados. A coesão social assente na unidade religiosa fez com que, de uma forma ou de outra, o qualificativo religioso fosse pretexto para outros interesses e se fomentassem massacres verdadeiramente dissonantes, desde a Guerra dos Camponeses à Guerra dos Trinta Anos, passando pela noite de S. Bartolomeu (1572). Um período triste a que, parafraseando D. Manuel Clemente, «a designação de “Guerras da Religião” empresta um rótulo falso e uma desculpa».